Paulo Pinto/AE
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Nigerianos usam metrô para tráfico de drogas em SP

Ligação rápida entre o centro e a zona leste facilitava transporte de cocaína; após descoberta, polícia monitorou estações por meses

Plinio Delphino, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2011 | 00h00

A Linha 3-Vermelha do Metrô é a nova rota do tráfico nigeriano em São Paulo. Os africanos, antes "mulas" do comércio de drogas, passaram a intermediar a transferência de cocaína de latinos para pontos de venda na zona leste da capital. E é pelos trilhos que ligam o centro aos bairros da periferia que o entorpecente viaja, dentro de mochilas, carregadas por homens fortes e bem vestidos.

As estações preferidas são Patriarca e Artur Alvim. No centro, República e Dom Pedro II são pontos de partida. Policiais do Setor de Investigações Gerais da 5.ª Seccional (SIG) prenderam 15 traficantes e apreenderam aproximadamente 300 quilos de cocaína em seis meses de investigação. Para tanto, contaram com a ajuda de um especialista em dialetos africanos para acompanhar escutas telefônicas feitas com autorização judicial.

As prisões começaram em junho de 2010 e terminaram em dezembro. Entre os detidos estava um peruano, responsável por um dos fornecimentos de droga.

O delegado titular da SIG, Ítalo Zaccaro Neto, explicou que os nigerianos usam o Metrô pela rapidez do transporte e por chamar menos atenção. "Em carros, correm muito mais risco de serem parados em blitze", disse.

As equipes do delegado Marcelo Bianchi Fortunato receberam informações de que o nigeriano Francis Udeze Aniunoh, de 41 anos, seria o principal intermediário do tráfico africano em São Paulo. Seu apelido: Donkolion, numa referência a Don Corleone, o mafioso mais famoso do cinema. Don, como também era conhecido, se responsabilizava por arregimentar africanos moradores da zona leste para distribuir a droga na região.

Em dezembro, durante uma intermediação de venda de cocaína, Don foi preso. "Era o cabeça do esquema", disse o delegado Bianchi. Ele é investigado também por manter relações com os fornecedores da cocaína, em sua maioria, de origem latina, como peruanos e bolivianos. A polícia também prendeu o peruano Jerson Isla Soto, de 29 anos, que vendia 26 kg da droga, e o comprador nigeriano John Uzorrchukwu Okoh, de 38. As transações foram feitas na Praça da República, na galeria da Rua 24 de Maio e no Largo do Paiçandu.

A polícia ainda não tem certeza se só os peruanos e bolivianos instalados em São Paulo são responsáveis diretos por trazer toda a cocaína que é negociada pelos nigerianos. "Percebemos essa nova movimentação dos nigerianos, intermediando e distribuindo cocaína para as bocas na zona leste", explicou o delegado Ítalo Zaccaro Neto.

Investigação. Foi o rastreamento de Don que levou os policiais da zona leste para o centro de São Paulo. Em junho, a cabeleireira congolesa Esperance Mwavita Nyembo, de 39 anos, foi presa na Rua Formosa, em Santa Cecília, com 2 kg de cocaína na bolsa. No mês seguinte, os nigerianos Nweke Francis Sunday, de 32 anos, e Celestine Obiora, de 28, e o desempregado Fernando Gomes, de 30 anos, natural de Guiné-Bissau, foram presos em um apartamento da Rua Ribeira do Pombal, na Vila Sílvia, zona leste de São Paulo, onde escondiam 112 kg da droga.

Após as primeiras prisões e a descoberta de uma possível rota, a polícia começava a percorrer o traçado da Linha 3-Vermelha do Metrô e, em setembro, os investigadores passaram a monitorar as estações. Na República, viram o nigeriano suspeito Adeniran Adeniyi, de 34 anos. Ele carregava 6 kg de cocaína em uma mochila.

As profissões variavam. Nos próximos meses seriam presos um cabeleireiro, um professor e comerciantes. Cada um com quatro a dez quilos de cocaína em sacolas e mochilas, sempre em estações da Linha 3-Vermelha, em direção ao centro da capital.

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