NETINHO QUER COTAS RACIAIS NO SERVIÇO PÚBLICO

Secretário de Promoção da Igualdade Racial diz que programa é pedido do prefeito Fernando Haddad para pasta que pleiteia R$ 150 milhões

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2013 | 02h05

São Paulo pode criar cotas para negros no funcionalismo municipal. O projeto é defendido pelo prefeito Fernando Haddad (PT) e será desenvolvido nos próximos quatro anos, segundo o cantor e vereador Netinho de Paula (PCdoB), indicado para comandar a futura Secretaria Municipal da Promoção da Igualdade Racial. A criação da pasta depende de aprovação da Câmara Municipal.

Ontem, em entrevista à TV Estadão, o vereador classificou as cotas como "um mal necessário". Para Netinho, a grande maioria étnica está renegada a subempregos e não atinge cargos de liderança, mesmo na esfera pública.

"É claro que essa é uma questão muito delicada, que tem de passar por uma conscientização. É esse o pedido do prefeito, que a gente, com calma, vá se conscientizando de que é necessário", disse.

Reeleito vereador em outubro, com 50.698 votos, Netinho vai estrear no Executivo a partir de uma escolha técnica, mas também política. Ao deixar o Palácio Anchieta, quem assume a vaga do partido é o ex-ministro dos Esportes Orlando Silva (PCdoB), que deixou o cargo após denúncias de corrupção em sua gestão.

A troca de função, porém, não ficará de graça para Haddad. O vereador quer orçamento próprio para viabilizar projetos que combatam o preconceito e capacitem o negro para ocupar postos de chefia.

"Estou orando todos os dias (para conseguir verba própria). Não temos um número fechado ainda, mas apresentamos um programa estrutural para ao prefeito que prevê 45 cargos e de R$ 120 a R$ 150 milhões por ano."

Recursos. O valor pleiteado por Netinho supera o custo da Secretaria Especial de Articulação para a Copa do Mundo, última pasta ocupada pelo PCdoB na Prefeitura, ainda na gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD). Eram 21 representantes e R$ 7 milhões de orçamento anual. Ontem à noite, durante ato ecumênico que marcou o Dia do Combate à Intolerância Religiosa, Haddad se comprometeu a destinar recursos exclusivos à futura secretaria, que terá autonomia até para lançar licitações.

Preconceito. São Paulo precisa assumir que é uma cidade racista. Para Netinho, essa é a condição para que o problema seja amenizado e o jovem da periferia possa ter melhores condições de vida e de emprego.

O futuro secretário defende a criação de programas de capacitação profissional para a baixa renda, que não ofereçam apenas aprendizado destinado a empregos com salários baixos. "A juventude pode mais, não precisa ficar restrita a cursos de pedreiro e de garçom. Pode fazer cursos de tecnologia também."

Ao oficializar a secretaria, Netinho vai atrás de parceiros nos governos federal e estadual para implementar em São Paulo o programa "Juventude Viva", que combate à violência contra jovens negros. Na capital, a intenção é direcioná-lo a jovens infratores detidos nas unidades da Fundação Casa, antiga Febem.

Netinho também assumirá o desafio de combater a homofobia e a intolerância com imigrantes, mulheres e índios - são 12 mil na cidade.

O trabalho, porém, será desenvolvido em parceria com as futuras Secretarias de Direitos Humanos e Política para Mulheres, que também precisarão de aprovação dos vereadores no próximo mês.

Política. Ao mesmo tempo em que elabora projetos para reduzir todo tipo de preconceito em São Paulo, Netinho traça planos e voos políticos mais ambiciosos. A saída da pasta deve ocorrer já em abril de 2014, para nova disputa eleitoral.

Ele ainda avalia as opções, mas já fala em sair candidato à Câmara Federal ou ao Senado, pela segunda vez. Em 2010, com o apoio do PT, Netinho teve 7,7 milhões de votos e perdeu a vaga nas duas últimas semanas para a atual ministra da Cultura, senadora Marta Suplicy (PT).

"A candidatura ao Senado depende de uma coligação mais ampla, e não sei se posso contar com o PT já", afirmou. Sobre a aliança com o partido, Netinho disse cumprir sua parte por convicção. "Quando aceito participar de um projeto, é porque acredito." No ano passado, ainda vereador, foi pré-candidato à Prefeitura e chegou a marcar 13 pontos porcentuais nas pesquisas de intenção de voto.

Futuro. No futuro, assumir o pleito para a Prefeitura de São Paulo não está descartado. Até lá, Netinho espera que a população supere de vez o caso da agressão contra sua ex-mulher, ainda muito debatido entre seus possíveis eleitores. "Eu errei e reconheci. Não acho que isso me prejudique mais."

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