Netas de uma roseira antiga

A porta da cozinha da casa de pau a pique, branquinha e de chão de terra batida, de meus avós maternos, dava para uma passagem lateral de um terreiro que terminava numa cerca de varas. Da cerca para lá ficava a nascente de água fria, cristalina e doce de que se serviam. A cerca era em si bonita, como toda cerca de varas, tão própria dos sítios caipiras ali do bairro do Arriá, no Pinhalzinho, encravado na serra entre Bragança Paulista e Socorro. A beleza suprema, no entanto, era a das rosas claras de uma roseira rústica agarrada à cerca, que floria o ano todo. Tinham um perfume suave, mas insistente, que nem sempre se pode sentir nas outras rosas. Cheguei até a pensar que minha avó sofria menos quando, às cinco da manhã, se levantava e saía para o lado de trás da casa para rachar a lenha que seria usada no seu fogão de taipa durante o dia. É que nas úmidas e frias manhãs da roça se podia sentir mais facilmente esse perfume, como se o dia e a movimentação de gente e de animais o espantasse de volta para o refúgio das pétalas delicadas.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2011 | 00h00

Desde menino, acostumei-me a esse perfume de rosas que, junto, com o cheiro de terra do terreiro em dia de chuva e o cheiro de tabatinga das paredes de barro da casa, era o cheiro da casa de minha avó. O tempo me mostrou que a memória é também memória dos odores que ficaram em nossas narinas para sempre. Porque também sentiu a falta desse perfume, minha mãe procurou e achou uma descendente daquela roseira na casa de parentes no Pinhá. Senti um dia que vinha do quintal de sua a casa, aqui no subúrbio de São Paulo e longe da roça, aquele perfume conhecido e ancestral. Fui ver e lá estava uma filha da roseira de minha avó. As flores também migram com os afetos que as cercam. Colhi um galho e o plantei no quintal de minha casa aqui em São Paulo: o neto de minha avó ainda sente, na neta de sua roseira, o mesmo perfume suave, carregado de histórias de várias gerações. E no outro dia, meu neto, que é trineto dessa avó, já sentia o aroma dessas rosas. E ria.

Indagando aqui e ali, soube que se trata da bisneta de uma roseira que foi plantada um dia por uma velha escrava da Fazenda Velha, uma espécie de madrinha de todos, conhecida por Nhá Florinda, que minha mãe conheceu quando era menina. E a quem me levou, logo que nasci, para que me pegasse no colo e me conhecesse, meio século após o fim da escravidão. Na beira do terreiro que foi da casa de Nhá Florinda, na Fazenda Velha, eu mesmo conheci imenso e florido cactus plantado por ela.

As rosas dessa roseira velha já nos tempos de antigamente perfumavam a vida de cativos e colonos de café, os humilhados e ofendidos, os que nasceram para os espinhos da terra e que dela tiraram também as perfumadas flores da vida. Fecundas contradições da esperança.

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