Nem virtuoso, nem virtuose

Eu já soube umas coisas. Achando o quê? Sabia, por exemplo, escrever à máquina. Não com todos os dez dedos, admito. Até porque nunca dei conta de usar integralmente os recursos à minha disposição. Domínio total, só do liquidificador e da máquina de lavar.

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2011 | 03h02

Culpa minha, eu sei. Meu pai me pagou um curso de datilografia, e o que fiz? Escolhi a escola mais vagabunda, à altura do aluno, onde o professor, se merece o nome, limitou-se a receitar: você divide o teclado ao meio, de alto a baixo, e distribui as teclas entre as duas mãos, daqui pra lá com a direita, daqui pra lá com a esquerda. Só isso? Só.

Em seguida, me entregou um livro, um exemplar desmilinguido de Rebecca, a Mulher Inesquecível, e me deixou em má companhia, isto é, entregue a mim mesmo. Não me lembro se cheguei a encarar mais de três "aulas", durante as quais, por ironia, devia proceder como a autora do romance, a inglesa Daphne du Maurier, a qual, como é sabido, copiou sem cerimônia a história contada por uma brasileirinha, a Carolina Nabuco, em A Sucessora. Por pouco não dei o troco, copiando o calhamaço da Daphne, àquela altura best seller mundial, com direito a filme de Hitchcock.

Não cheguei a tanto. Houvesse saco! Lá fora daquela garagem improvisada em escola de datilografia, a vida me esperava. A vida era a namorada, o basquete, as festinhas, os amigos, o colégio, o maço de Luís XV sem filtro, a cuba-libre, a irremediável mesmice belo-horizontal. Era também, apaixonadamente, a literatura, ou seja, aquelas resmas (é a primeira vez que uso esta palavra) de papel que eu punha a perder com minha datilografia para sempre capenga. Se até hoje não produzi alguma obra minimamente prima é porque os dedos nunca tiveram pernas para acompanhar o trote fogoso da inspiração. Passei do manuscrito à Remington de meu pai, na qual, em troca de semanadas extras, me exercitei copiando para ele o papelório edificante do Movimento Familiar Cristão. Se não resultei um homem virtuoso, meus amigos, não foi por falta de bibliografia. Nem virtuoso, nem virtuose.

E eis que aos 17 anos chego em casa e dou com uma Olivetti Lettera 22 novinha, presente de meu tio e padrinho Jayme, que, ginecologista e obstetra, já me fizera o favor, ou não, de me botar no mundo. O estojo não é mais o original, mas a maquininha ainda está aqui, e, ao contrário do dono, em ótimo estado de conservação.

E olha que aguentou provas terríveis, a coitada. Rodar de lá pra cá em meus anos de correspondente na Europa não foi nada. Pior foi encarar, ainda que maquinalmente, o estro poético do proprietário, que, muito prosa, a certa altura se meteu a produzir sonetos, em ritmo ainda mais acelerado ao descobrir, na leitura de Augusto Frederico Schmidt, que rimar não era obrigatório. Bastava embicar ladeira abaixo, no lombo de decassílabos sáficos ou heroicos, até a chave de ouro, ou de latão mesmo, do soneto. Para mal de meus pecados, há uns versos que não consigo esquecer, indelevelmente tatuados na memória, resistentes talvez, começo a crer, à borracha do mais corrosivo Alzheimer: "Tecer-te-ei um dia, não com flores,/ uma grinalda multicor de sons". Fiquemos por aqui...

Mais adiante, saltei do lirismo à indignação cívica, sob a forma de rajadas de prosa farpada com as quais, não tinha dúvida, eu haveria de varrer a milicaiada do poder. De um daqueles panfletos me ficou o título: "Entre a subversão e a subserviência". Nem a polícia tomou conhecimento, e não foi por algo que tenha escrito que vim a gramar um mês de cana, literalmente num porão da ditadura (a cela 3 do Dops era no subsolo), por sorte ainda ao tempo da barra leve, pré-AI-5.

O faro político, aliás, tanto quanto a datilografia, nunca foi meu forte. Bem antes, quando a cana era outra, copiosamente sorvida nas noites de sábado, eu tinha usado a Lettera 22 para editar com dois amigos o jornalzinho da nossa turma de bairro. O Zoiúdo falava de tudo e todos - mas quase nada daquela menina com cara de esquilo. Já contei numa crônica, e outro dia no Programa do Jô, não repare se insisto, preciso purgar a minha imprevidência. A menina veio a ser, no século seguinte, a Dilma Rousseff. Ainda esquilal, agora presidental, está em todos os jornais - e tão pouco nas páginas do finado Zoiúdo...

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