Nem prédio simples escapa de arrastões

Sete das nove invasões deste ano na capital foram em edifícios sem sistema de segurança

Camilla Haddad, O Estado de S.Paulo

08 Março 2011 | 00h00

Antes restrito a condomínios de prédios e casas de luxo, os arrastões se tornaram comuns em prédios mais simples, sem tanta segurança, e em bairros como Jaçanã, zona norte, e Liberdade e Aclimação, na região central de São Paulo. Desde janeiro, foram registrados pelo menos sete ataques. Para especialistas em segurança, essa mudança demonstra uma "banalização do crime".

"É como ocorreu com a extorsão mediante sequestro. Antes, só os ricos eram alvo. Depois, até o trabalhador, uma pessoa que está andando na rua, virou vítima", afirma Jorge Lordello, ex-delegado e consultor na área de segurança. Ele faz um alerta: moradores desse tipo de prédio devem começar a se preocupar com a segurança e tomar cuidados simples, como trancar a porta do apartamento.

Apesar de não ter nenhum estudo específico sobre a questão, Chen Gilad, presidente da Haganá, uma das principais empresas de segurança em edifícios da cidade, também acredita que esteja ocorrendo uma mudança no perfil dos arrastões. "Acreditamos que grupos mais organizados e numerosos tendem a invadir prédios de maior padrão, enquanto grupos menores ou até iniciantes optam por prédios de menor retorno, porém com menores riscos."

Menos segurança. Para Felipe Gonçalves, também consultor de segurança, esses crimes demonstram um fator preocupante. "É muito mais fácil entrar nesses prédios. A maioria desses condomínios não tem nem porteiro", afirma.

Foi exatamente assim que uma família e seu vizinho foram mantidos reféns em um prédio na Avenida Aclimação, zona sul, em 11 de fevereiro. Ladrões invadiram o local justamente antes da chegada do porteiro, que faz plantão após as 7 horas. Uma das vítimas, uma mulher de 30 anos, afirma que nunca pensou que seu prédio seria alvo de arrastão. Criminosos levaram dólares, celulares e relógios.

Quem mora perto de um prédio da Rua Ribeiro de Lima, no Bom Retiro, região central, invadido por ladrões em 2 de janeiro, espanta-se. "Até agora não entendi por que ladrões escolheram esse prédio, que só tem trabalhador", diz uma moradora.

Em 2009, a cidade registrou 21 arrastões em condomínios. No ano passado, foram 24 casos, segundo a polícia. Neste ano, o número já chega a nove. Levantamento da reportagem mostra que na maioria dos prédios atacados neste ano - os sete com perfil mais simples - bandidos usaram armas e pistolas.

Outros dois prédios invadidos, em áreas mais nobres, como Alto da Boa Vista e Morumbi, têm um perfil que se assemelha aos casos do ano passado, registrados em locais com moradores de alto poder aquisitivo e cercados por seguranças. Nesses dois casos, os bandidos entraram armados com metralhadoras e levaram, apenas de um dos apartamentos, cerca de R$ 1,5 milhão.

Há um mês, a reportagem pede que o Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic) comente os casos de arrastões a condomínios, mas ainda não obteve resposta.

CRONOLOGIA

Ataques em série

2 de janeiro

Bandidos invadem prédio na Rua Ribeiro de Lima, no Bom Retiro, região central. Quatro são presos.

12 de janeiro

Após render porteiro, criminosos fazem arrastão em condomínio na Rua Quatá, Vila Olímpia.

19 de janeiro

Prédio na Rua Barão do Iguape, Liberdade, é invadido por seis ladrões.

23 de janeiro

Edifício de um e dois dormitórios na Rua Galvão Bueno, Liberdade, é atacado.

11 de fevereiro

Ladrões aproveitam a portaria vazia para entrar em prédio na Avenida Aclimação, no bairro de mesmo nome.

22 de fevereiro

Criminosos entram pela garagem em edifício na Rua Padre Raposo, na Mooca.

4 de março

Trio invade condomínio sem sistema de monitoramento na Rua Catuji, no Jaçanã, após render morador.

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