Nem morta!

Dona Alzira - aquela, talvez você se lembre, que bolou um escudo de eucatex para se defender de um tarado munido de raio laser - está desconfiada de que vai morrer. Claro, todo mundo morre. Mas assim, sem mais? Se ao menos estivesse doente, suspira ela. O problema é que, paranormal ou quase, não costuma se enganar. E ultimamente anda assombrada por péssimos presságios. Deu para sonhar com tias velhas que há muito bateram a pacuera (é do tempo em que se usava dizer), sentadas em roda com ela, bordando varicor. Para completar, outro dia na TV um bonitão piscou insinuante e lhe fez a inequívoca proposta: vem pra caixa você também!

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2011 | 00h00

Dona Alzira está ciente de que mais dia menos dia todos nós, ela inclusive, iremos para a caixa. Mas está custando a se conformar. Logo agora, no auge da criatividade! Conhece alguém - desafia - que na sua idade dá conta de inventar escudo de eucatex para neutralizar o raio laser vermelho do tarado que vem ameaçando a mulherada do bairro? Dona Alzira até aceita bater sua pacuera, mas não gostaria que isso acontecesse por obra de um bruto.

Ela sabe que ninguém morre bonito, mas gostaria de tentar. Tem seu próprio enredo para a morte com classe. Quando a longa mão de Deus vier colhê-la, que a encontre recostada numa bela cama, se possível com dossel. Na hora de apresentar-se ante o Criador, fará questão de estar discreta porém impecavelmente maquiada, como as divas do cinema, e como elas finar-se com um sorriso beatífico que não se apagará nem mesmo quando, em suave movimento, a cabeça girar para um dos lados, à luz bruxuleante (o bruxuleio é indispensável) de uma vela. E que no instante da passagem alguém lhe tome delicadamente a mão.

Mas que esse alguém, por favor!, não seja o marido. Morrer segurando a mão do Valter? Nem morta! Isto sim, seria a morte, não a boa, com maquiagem e luz bruxuleante, mas a ruim, antecâmara do inferno, com estertores e bocão escancarado. Inferno ela já teve em vida, os anos passados em companhia do Valter, a mais pesada das cruzes que lhe tocou carregar neste vale de lágrimas. Desenvolveu por ele uma compacta, siderúrgica, inoxidável aversão. É desagradável descer a tais detalhes, mas vamos lá: ela costuma flambar o vaso sanitário assim que o Valter faz suas nojentas necessidades. Quem contou? Um netinho, deslumbrado com a brincadeira da vovó: quando o vovô sai, ela vai lá e toca fogo na privada!

Onde estava com a cabeça? Sonhava com Clark Gable e acabou nos braços do Valter. Imantação sexual não terá sido: Dona Alzira casou hermeticamente virgem e jamais pulou a cerca de sua Guantánamo conjugal, mas até por analogia sabe reconhecer uma carne de segunda. O Valter já não era um Adônis quando se conheceram, mas ninguém imaginava aquilo em que haveria de se converter. A feiura estridente que o tempo iria esculpir. Foi uma sacanagem do bom Deus, deplora ela. O pescoço virou um fole. O corpo, superposição de gomos de banha, hoje arremeda o bonequinho da Michelin. Ele é botérico, rotulou alguém, aludindo à mais rotunda das figuras de Botero. Um sachê de todas as porcarias, fareja outro. Ah, não, nem mesmo nas vascas da agonia (expressão, acha ela, linda de morrer) Dona Alzira aceitará ter sua mão entre as do Valter - rechonchudas, suarentas, argh, de dedos curtos como pequenas espátulas abertas em leque, arrematadas por unhas encardidas de cigarro.

Porque tem mais esta: ele fuma o tempo todo. Eu mesmo me cansei de flagrá-lo entre baforadas, escarrapachado numa poltroninha, os miúdos pés descalços apoiados num tamborete, tendo no colo um televisor portátil cuja luz destaca da escuridão da sala umas feições de bacorinho. De quando em quando, um berro para as entranhas da casa, cerveja!, e lá vem Dona Alzira com mais uma garrafa, garrafa que sua fantasia encheu de estricnina e que ela tem pensado em beber inteira, de gute-gute, mas não sem antes encarar ao menos uma vez o rubro raio laser do tarado, o qual, diferentemente do Valter, insiste em não comparecer.

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