Nem aqui nem na Capadócia!

Era eu redator-chefe da Playboy (sim, rapazes, ela mesma, aquela revista farta em cultura trans que vocês compram para ler interessantes artigos e entrevistas aprofundadas) quando, uma tarde, me liga a escritora Hilda Hilst, grande figura e escritora melhor ainda, porém dada a chamar em momentos pouco adequados. Foi o que aconteceu naquele dia de dezembro, em plena correria para fechar uma edição que deixaríamos pronta antes das férias coletivas. Em meio ao caos, lá estava ao telefone, chorosa, aquela que não sem bons motivos já chamei de minha amiga heavy metal.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

A conversa também não era nova: Hilda se dizia financeiramente arruinada, e, uma vez mais, imprecava sem piedade contra pessoas que lhe haviam "tomado" terras. Ela vivia na Casa do Sol, perto de Campinas, outrora sede de uma propriedade rural que lhe viera às mãos como herança de família. No correr dos anos, quando seu saldo bancário emagrecia, Hilda ia passando nos cobres uns nacos de terra, com o que sua fazenda acabou praticamente resumida à Casa do Sol - bela construção em estilo espanholado que a escritora dividia com agregados (Caio Fernando Abreu foi um deles), o ex-marido e várias dezenas de cães recolhidos por aí.

Curiosamente, Hilda não parecia dar-se conta da relação que havia entre suas operações imobiliárias e o encolhimento da propriedade. Considerava-se lesada pelos compradores, uma gente solerte que a seu ver passava a perna na ingênua e desamparada escritora - e que por isso ela fustigava com rajadas de pragas e desaforos, cravejadas dos mais corrosivos e infamantes palavrões.

Naquele dezembro de 1994 Hilda estava outra vez sem dinheiro e vinha oferecer à Playboy um conto erótico de sua lavra, ainda por escrever, na linha daqueles que, fazia uns anos, lhe haviam valido notoriedade até literária. Sim, meu amor, resumiu ela cruamente, uma história com muita sacanagem. Mande lá, disse eu, confiante em que os leitores (a palavra talvez não seja bem esta) não ficariam descontentes se lhes servíssemos alguma prosa estimulante, além, claro, dos artigos interessantes e das entrevistas aprofundadas.

Confesso que não levei a sério a conversa - escaldado por experiências anteriores, imaginei que minutos depois Hilda, tendo conseguido em outra fonte a transfusão de que sua conta bancária precisava, já nem se lembraria do oferecimento da tal "história com muita sacanagem". Tinha sido assim em 1989, numa passagem que já contei: não menos chorosa, num leito de hospital, ela tanto insistiu que aceitei me transformar em seu cabo eleitoral na luta pelo troféu Juca Pato, de Intelectual do Ano, disputado também por "aquele padre", o cardeal Paulo Evaristo Arns. Perdeu, é claro - mas quando liguei, estava alegrinha, já nem se lembrava do "padre" e só faltou me consolar.

Dessa vez, porém, Hilda me surpreendeu: não se haviam passado duas horas quando me chegaram, por fax, as quatro laudas de um texto que, sem entrar no mérito da qualidade literária, resultara impublicável na Playboy. Havia nele, é verdade, uma "viscosidade no meio das coxas", mas me ocorreu que nosso leitor, ao se deparar com exotismos do tipo "deixa-me oscular tua rósea orquídea", talvez tivesse dificuldade em, digamos assim, ligar o nome à pessoa. A própria Hilda deve ter percebido a inconveniência, pois lá pelas tantas introduziu na história um personagem, Humberto, que pergunta: "Não tem um texto mais alegre?". A interlocutora, de nome Hilda, oferece sem muito entusiasmo uma alternativa: "Tem. O Cu do Sapo Liliu, mas é um texto infantil e não é inédito". "Então nada feito, Hilst", decido eu, ou melhor, Humberto. Hilda volta à carga: "Pera, pera, agora me lembro, tem este aqui" - e põe sob os olhos do interlocutor uma lauda intitulada Penis kapadocius, o que me deu o trabalho adicional de explicar à autora, agora na vida real, que o leitor da Playboy, supõe-se, não está interessado nessa mercadoria, ainda que capadócia. Tudo bem, disse Hilda Hilst, alegrinha de dar gosto.

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