Nem água é paga por todos

Desafio à vista

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2010 | 00h00

O esgoto dos blocos 23 e 24 do Cingapura da Avenida Zachi Narchi, na zona norte de São Paulo, estava com canos entupidos na semana passada. Há mais de uma semana o mau cheiro invadia os apartamentos. Coube a Iraci Pereira da Silva, de 61 anos, resolver o problema. Ela atua como síndica do bloco, de 20 apartamentos. De perto, os 35 prédios não são tão iguais quanto parecem para quem passa da rua. Alguns são bem sujos e abandonados, outros contam até com portão elétrico e interfone. "É muita gente que não quer nada, que joga lixo. É uma dificuldade deixar todas as contas em dia", diz, após 15 anos no complexo.

Já a artesã Ione Pereira dos Santos, de 33 anos, sequer conseguiu colocar o piso e mobiliar seu apartamento, mas tem de se desdobrar para resolver os problemas provocados pelos vizinhos. Contemplada há pouco mais de um ano com uma unidade popular na região da Favela São Francisco Global, na zona leste de São Paulo - anteriormente morou num barraco de madeira -, Ione também é a síndica do bloco. Assumiu a função quando a administradora abandonou o prédio. Além da conta de água e luz, os moradores tinham de pagar R$ 10 para a limpeza e iluminação dos corredores, e mais R$ 3,50 para a empresa. Nem a água todos pagam. "Estou organizando para quitar. Mais uma conta, como a de um elevador, seria impossível de dar conta", diz.

Mas quem não vê a hora de ir para um prédio é o padeiro desempregado Lázaro de Camargo Guerra, de 44 anos. Ele mora com a mulher e quatro filhos em uma barraco de madeira na vizinhança da favela. Não paga contas de água e luz - todas as ligações são clandestinas. "Fui o primeiro a invadir aqui nesta parte, há seis anos, e agora estou esperando uma unidade num prédio. É meu sonho."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.