Natal inspira reconciliações e até baladas

Amor, perdão e solidariedade permeiam espírito da data - em meio a intensas mudanças sociais

DENIZE GUEDES, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 04h32

Ele só não passaria o Natal sozinho porque Priscila não levou a cadela Bolacha quando foi embora com a filha do casal, Maria Eduarda, de 3 anos, no dia 16. "Ia ser triste demais", diz o agora aliviado oficial de funilaria. Encorajado pelo espírito natalino, Manoel Luiz Soares da Silva, de 24 anos, fez na sexta-feira uma loucura de amor - dessas com carro de som, chuva de prata e rojões - na tentativa de ganhar de volta a mulher com quem diz querer "passar o resto da vida". Funcionou.

"Ele pediu perdão, falou que as pessoas erram, que se esforçaria para mudar", diz Priscila Anizia da Silva, de 24 anos. "Fiquei emocionada. Voltei para casa hoje (anteontem)."

Silva não foi o único a tentar fazer as pazes - e, de quebra, demonstrar seu amor - no Natal. "Dezembro é o mês em que a gente mais trabalha, tem homenagem ou reconciliação todo dia", afirma Fabiana Araújo, da Pegasus Loucuras de Amor.

A psicóloga Junia Cicivizzo, especialista em Medicina Comportamental, explica que a data católica, do nascimento de Jesus Cristo, desperta nas pessoas "um inconsciente coletivo de séculos" - que traz à tona sentimentos como amor, compaixão, tolerância, solidariedade e o perdão, que fez Priscila voltar para casa, por exemplo.

Na rua. Quem vive do que ganha por trabalhar na rua nota a diferença. Aguinaldo Esteves, de 52 anos, que oferecia na quarta-feira doces em um dos semáforos da Avenida Luís Dumont Villares, perto da Estação Parada Inglesa (Linha 1-Azul) do Metrô, na zona norte, conta que chega a dobrar as vendas. "Se eu tiro uns R$ 30 de lucro em dias normais, isso vai para R$ 60 no fim de ano. O pessoal fica mais sentimental."

No mesmo dia, na Avenida Santos Dumont, região central, na frente da Estação Armênia (Linha 1), os artistas de rua gaúchos que pintam o corpo de prata e executam malabarismos no semáforo ainda não sentiam o bolso mais pesado.

"Mas é só chegar (os dias) 24 e 25 que bate o tal do espírito (natalino) e os guris ganham panetone, caixinha, cesta básica", diz Robson Costa Cruz, de 23 anos. O xará Robson Moreira da Silva, de 21, completa com a gíria regional: "É tri (legal)!"

Peru. Mas, se antes o espírito natalino tinha seu ponto alto na Igreja e na reunião familiar em torno do peru, hoje inclui, cada vez mais, shopping lotado, amigos-secretos sem-fim, confraternizações em etapas (com os pais separados, por exemplo) e até baladas na noite.

Uma das festas da noite de hoje, na Casa da Fazenda do Morumbi, zona sul, apela ao espírito de Natal: com show da banda Double You. Parte da renda será revertida para a ONG Make Them Smile. "Vive-se uma grande mudança social", diz a psicóloga Junia.

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