Nas profundas dos '70

Os amigos ficaram em choque, em xeque, quase em chilique quando começaram a correr murmurações de que ele dera para frequentar reuniões do Somos, recém-criado "grupo de afirmação homossexual". Pior que isso: fora visto (por quem? Melhor não perguntar...) na suarenta animação da Homo Sapiens, boate gay que crepitava no centro de São Paulo naquela incauta antevéspera da aids.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h06

Logo ele, acima de qualquer suspeita - e os companheiros de pelada e churrasco se encheram de dedos para interpelá-lo, aflitos porém esperançosos de que não passassem de boatos suas imersões lascivas na Homo Sapiens e a adesão ao tal grupo de afirmação homossexual.

- Somos - confirmou ele - e piscou, malicioso: - Mas quem não são?

* * *

Pela mesma época, final dos anos 70, quatro ou cinco jovens casais paulistanos viravam noites papeando, enquanto davam cabo do nacional Granja União, que todos eles (inclusive o que hoje é enólogo dos mais bochechadores) consideravam não só potável como altamente palatável.

A conversa volta e meia era sobre os filhos que em breve iriam ter, e sobre cuja educação, eriçada dos piagets e summerhills da moda, cada qual tinha inquebrantáveis convicções.

Com a autoridade de quem era ali o único par que já proliferara, um dos casais pontificava, ah, não é como vocês estão pensando - e tome teorias hauridas em noites em claro, febres ebulientes e cocôs apoteóticos. A jovem mãe, essa exorbitava na modernidade. Quando fulaninha - então com seis meses de idade - tivesse um namoradinho, e o levasse à casa, ela não só permitiria que dormissem juntos como providenciaria as toalhas e lençóis.

Disse aquilo e correu os olhos em roda, ávida por recolher os aplausos que sua mentalidade aberta, escancarada, na certa merecia. Segundos de silêncio antes que se fizesse ouvir a voz acolchoada de uma das jovens senhoras, possuidora de até então insuspeitado espírito de porco:

- E se em vez de namoradinho ela te aparecer com uma namoradinha?

- Eu mato! - rugiu a mãe avançada, regredindo bruscamente a sua caverna de classe média bem-pensante -, eu mato!, num descontrole até físico que a fez derrubar um copo, pondo a perder preciosos centilitros de Granja União e inutilizando o carpete, aquela praga que revestiu os anos 70.

* * *

A moçada de hoje há de rir do sufoco por que eventualmente passavam, naquela triste década, os consumidores de Cannabis sativa. Na casa de uma numerosa família belo-horizontina, a lavadeira, na hora de botar a roupa na máquina, achou uma trouxinha no bolso da calça de um dos rapazes - e, ávida por mostrar serviço também no quesito repressão, levou o achado ao chefe da família. O qual, no mesmo dia, encerrado o jantar, convocou o filho: precisamos ter uma conversa! Fechados na sala, o patriarca, sem dizer palavra, estendeu o braço e, teatralmente, exibiu na mão espalmada o móvel do crime.

- Meu guaraná! - exclamou na bucha o rapaz, apoderando-se da trouxinha, enquanto o rosto do pai se desanuviava. Diria depois ao filho mais velho:

- E eu que cheguei a fazer mau juízo do seu irmão, pensando que ele fumava maconha...

* * *

Em outra casa de boa família, pai e mãe não sabiam sequer sob que forma os jovens transviados consumiam maconha - erva diabólica que acreditam ser de uso exclusivo de "pretos vadios em terrenos baldios", no dizer desinformado e rimado do doutor. Já a matriarca fantasiava hordas de marginais a sorver, sob a forma de chá, "copos e copos de maconha". Os filhos, claro, não se pronunciavam. Como no tango de Gardel, fumando esperavam. Olhinhos vermelhos e expressão bovina, limitavam-se a ver o pai passar com o regador rumo ao jardim:

- Lá vai o velho aguar as coisas...

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