'Nas cidades, decisões têm de ser acordadas'

Serão necessários mais 10 ou 15 anos para Medellín, cidade colombiana que nos anos 1980 e 1990 carregou o desonroso título de mais violenta do mundo, concluir o ciclo de transformação urbana e social por que vem passando na última década - que serve de inspiração para o Rio. Aqui, como lá, tudo depende da continuidade das políticas públicas voltadas à inclusão dos mais pobres, diz o arquiteto Alejandro Echeverri. "E a política é sempre muito frágil." No Rio para participar do seminário Arq. Futuro - iniciado ontem, com continuidade em São Paulo de amanhã a sexta-feira, ele fala das lições que Medellín pode dar ao Brasil.

Entrevista com

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2013 | 02h03

O modelo de Medellín inspirou o Rio. É possível reproduzir seus resultados?

Implementar modelos tendo experiências de outras cidades como referência não é tão fácil. Quando começamos, um dos casos que nos interessou muito foi o do projeto carioca Favela-Bairro (de urbanização de favelas, da década de 1990). Da mesma forma, vieram outros governos a Medellín para reproduzir o nosso. Infelizmente - não estou dizendo que é o caso do Rio -, às vezes pegam só as iniciativas mais visíveis, mas não todos os processos que garantem a permanência e o impacto social do programa.

Qual a importância de se levar arquitetura de vanguarda a comunidades pobres?

Mais do que arquitetura de vanguarda, tem de levar boa arquitetura. Medellín ainda está no início do processo, serão necessários mais 10 ou 15 anos, nada estará garantido. O que quisemos foi incluir a comunidade nos processos culturais, econômicos e sociais da cidade "normal". A estética, a qualidade, o design das obras, isso é fundamental para gerar apropriação, valorização e respeito, para que os edifícios sejam pontos de atração para toda a cidade, e não só para as comunidades em que estão.

Na Rocinha, o governo queria instalar um teleférico, mas para a população a prioridade deveria ser saneamento básico. Existe um limite para a participação popular?

As decisões têm de ser acordadas, mas nem todas podem ser objetos de participação popular. Há questões estratégicas, como de transporte, que vão implicar mudanças (...) e necessidade de remoções de famílias. Algumas das obras que hoje têm mais êxito em Medellín, como a Biblioteca Espanha, tiveram a princípio muita resistência, porque a população não entendia quais seriam os benefícios - 120 famílias foram removidas. A biblioteca virou um projeto emblemático, um marco de participação comunitária. Um sucesso.

Um slogan da sua passagem pela prefeitura de Medellín foi "planejar para não improvisar". Como isso é possível em áreas marcadas pela informalidade? Combinamos planejamento e execução de projetos. Não é possível ser absolutamente teórico. Os projetos-modelo ajudaram muito. Para fazer mudanças nas comunidades, é difícil explicar apenas de forma abstrata, mostrando desenhos: é preciso apresentar modelos reais de transformação.

O combate ao crime tem de vir com as intervenções urbanas? Claro que a violência do narcotráfico não se soluciona unicamente com intervenções urbanas. Na Colômbia, o governo federal focou em segurança e a prefeitura, na reconquista dos espaços públicos. Ainda temos problemas de segurança, e esse processo é frágil, porque a política é frágil.

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