Nas barbas da multidão

Embora não fosse tiete, e muito menos uma autoridade, lá estava eu na fila do gargarejo, naquela praça apinhada, vendo o homem falar. A cidade era Sancti Spiritu, nas entranhas de Cuba, e o homem, inevitavelmente, Fidel Castro. Quanto a mim, antes que você me venha com insinuações, fazia o meu trabalho de repórter. E aproveitava para matar a vontade de ver como é que El Comandante funcionava nas barbas da multidão.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h06

Funcionava bem. Fidel, que ainda não havia pedido o boné (o quepe, para ser mais exato), tinha então 60 anos, e estava com a corda toda naquele 26 de Julho, a grande data da Cuba revolucionária. Para alívio não só meu, teve a gentileza de ser breve - breve em termos fidelísticos, é claro: a arenga durou apenas quatro horas, metade do que duravam seus torrenciais discursos.

Eu já desconfiava que Fidel Castro não ia falar bem do imperialismo ou mal do socialismo, mas estava curioso - e não me decepcionei. Dessas coisas que você tem de ver uma vez na vida, pensava eu, ao mesmo tempo em que, às voltas com a cerveja do almoço, relutava em dar uma saidinha para ir desembarcá-la: seria uma indelicadeza com o homem, pois ele estava falando só para mim. Não, eu não estava acometido de apoteose mental: Fidel dava mesmo a impressão de estar falando para cada um.

Artista da comunicação de massa, ele alternava dois discursos, com destreza de cozinheiro que vira e revira a panqueca, fazendo-a cair de volta na frigideira sem jamais estorricar. Brandindo o punho no ar e fazendo fremir a barba já meio rarefeita (quase dava para ver o queixo insignificante), Fidel desatava uma ribombante retórica anticapitalista, para, na sequência, apoiando o mesmo braço no atril, enveredar por uma conversinha de dona de casa em porta de quitanda sobre o preço da dúzia de ovos. A encenação resultava tão envolvente que você, nesses momentos, até se esquecia das premências fisiológicas. Dali a pouco, sem transição, olha o homem atirando de novo a panqueca nas alturas, dessa vez para endereçar ao imperialismo uma nova saraivada de desaforos. Por manjado que fosse, o papo parecia mais urgente que o meu desembarque hídrico.

Lá pelas tantas, o relógio da torre no fundo da praça bateu três vezes, cortando no ponto mais incandescente uma descompostura no governo americano. A CIA não teria feito melhor. Uma onda de desconforto perpassou a plateia: e essa agora? Exímio na arte de manter-se firme nos arreios nas circunstâncias mais desfavoráveis, Fidel deixou no ar o punho crispado, vacilou, pareceu perder o fio - mas só por um segundo, após o qual se apoderou da deixa, revertendo a seu favor o incidente sonoro:

"É chegada para os povos a hora de tomar nas mãos o seu destino..."

E, a partir daí, cuidou de pôr o relógio a serviço de sua encenação. Quando, 60 minutos mais tarde, o carrilhão estava prestes a soar de novo, El Comandante desenrolou um tapetinho vermelho para que entrassem as quatro badaladas:

"Deixemos agora que fale o tempo..." - e o tempo falou: blém-blém-blém-blém.

Nem o maior inimigo há de negar: como orador, o homem era craque.

Não só como orador, reconheçamos, como pude comprovar numa tarde em que houve um princípio de incêndio no subsolo do hotel Habana Libre, no bairro de El Vedado. Eu passava por ali e me incorporei à multidão mesmerizada ante os rolos de fumaça grossa. Estávamos nisso, apreensivos, quando a nossas costas cantaram os pneus de um jipe, do qual, lépido, saltou Fidel Castro em pessoa. Mudança radical de script: já ninguém dava a mínima para as chamas que ameaçavam consumir o hotel onde o guerrilheiro-mor se aboletara após a tomada de Havana, em janeiro de 1959. O fogaréu teve de se resignar a um papel secundário, pois todos os olhares estavam em Fidel - inclusive o meu, já que por nada deste mundo eu perderia a chance de ver o líder incendiário no papel de bombeiro.

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