Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

''Não somos vagabundos, não, hein''

Jhonatan nasceu e cresceu no Batan, na zona oeste do Rio; sem conseguir estudar para ter emprego fixo, aluga moto para fazer entregas

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Tomar uma cervejinha gelada em plena terça-feira às 14 horas ao som de pagode não é para qualquer um. "Não somos vagabundos, não, hein", reage logo Jhonathan Dias do Nascimento, de 19 anos. Pés descalços, sorriso largo, cercado por dois amigos, Jhonathan segue a filosofia de Zeca Pagodinho. Deixa que a vida o leve sem fazer muito esforço para mudar o rumo do destino. Ele até andou tentando, mas ficou só um mês no curso de auxiliar de enfermagem aberto pelo governo estadual na comunidade.

A dificuldade em aprender fez Jhonathan desistir de vez de estudar. Ele nasceu e cresceu no Batan, comunidade da zona oeste que ficou famosa pelo episódio em que dois repórteres do jornal O Dia foram torturados por milicianos, em 2008.

O caso mudou a vida do Batan, a 40 quilômetros do centro do Rio. O lugar, por anos esquecido pelo poder público, agora tem unidade da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), policiamento 24 horas e oferta de empregos. É lá que está a maior taxa de jovens que não estudam nem trabalham das favelas pesquisadas pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets). São 36,5% dos que têm entre 15 e 24 anos. O que mais se vê no Batan durante o dia são adolescentes correndo atrás de pipa.

Jhonathan prefere o papo com os amigos. Três vezes por semana, aluga uma moto para fazer serviços de mototáxi nas redondezas. Quando chega aos R$ 250 de faturamento, relaxa. Com o dinheiro já dá para pagar sua parte no aluguel do cômodo que divide com dois amigos e se sustentar o resto do mês.

Aí se entrega às cervejas como fez na terça-feira com os amigos Allan Augusto, de 25 anos, trabalhador de carteira assinada, e Alex Araujo, que ganha uns trocados aplicando insulfilm em carros. "Nossa felicidade é fazer barulho", diz Jhonathan se referindo ao pagode que o trio compôs. A vida no Batan é suficiente. "Já vimos muita tragédia aqui na época do tráfico e da milícia. A vida agora está bacana." Melhor só se conseguissem viver do "barulho". "Aí já é difícil. O sol é para todos, mas a sombra é para os privilegiados", filosofa Allan.

Esforço. Nem todos que vivem no limbo conseguem manter o otimismo. Jovino Neto, que há 16 anos trabalha no Borel com a ONG Jocum, acompanha a peregrinação dos adolescentes. E vê aflito o desânimo dos meninos quando eles não se encaixam em nenhum curso ou emprego porque não têm o nível de escolaridade exigido. Nessas horas, Neto sofre junto com eles. "Viu só, Neto? Não sirvo para nada. É por isso que vou continuar na vida."

Neto não desiste. Para os mais perdidos, tenta arrumar qualquer emprego. Seu medo é que o governo deixe esses jovens de lado. "O poder público desiste rápido demais. Esse é um trabalho de formiguinha", diz.

A solução para Monique Carvalho, socióloga que convive com essa geração nas comunidades, está no empenho sem trégua do Estado. "A UPP acabou com a violência da arma. Não se ouve mais tiro nessas favelas. Agora chegou a hora de o Estado intervir para que a juventude deixe de ser um nó." / MÁRCIA VIEIRA

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