'Não sintam vergonha de não falar português', diz Padilha

Ministro minimiza domínio de idioma: 'Eu atendi povos indígenas e até hoje não sei a língua deles', falou a médicos

Laís Alegretti, Angela Lacerda e Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2013 | 02h01

No dia em que profissionais estrangeiros do Mais Médicos começaram a ter seus conhecimentos de língua portuguesa avaliados, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, usou o próprio exemplo para dizer que o domínio do idioma não é necessário para exercer a medicina. O mais importante, segundo ele, é a experiência e a vontade de ajudar. "Eu atendi vários povos indígenas e até hoje não sei uma língua indígena", afirmou.

"Vocês não se envergonhem de não falar. Às vezes, alguém pode pensar 'eu não falo tão bem português', mas aproveitem aqui para falar", disse o ministro, durante a recepção a 199 médicos estrangeiros em Brasília. Padilha mostrou até foto do período em que atuou no interior do Pará. "Esse aí sou eu, e não tinha cabelo branco. Ser ministro da Saúde dá mais cabelo branco do que trabalhar no interior da Amazônia", brincou.

Os 682 médicos formados no exterior começaram ontem a avaliação do idioma e sobre o sistema de saúde do Brasil. O período de testes vai durar três semanas em Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio, Salvador e São Paulo. Os aprovados chegam às cidades em 16 de setembro.

Antropologia. No Rio, os diplomados no exterior tiveram contato com a diversidade da cultura brasileira pelo olhar do antropólogo Darcy Ribeiro. Os 88 profissionais (brasileiros formados no exterior, portugueses, argentinos, espanhóis, uma russa e um egípcio) assistiram a quatro episódios do documentário Povo Brasileiro, sobre a formação da identidade nacional.

Eles também ouviram as linhas gerais do programa. Cada médico diplomado no exterior terá um tutor, um médico ligado a uma universidade federal, a quem poderá recorrer. Também farão um curso a distância de atenção básica. A formação exigirá dedicação diária de 2 horas. Os médicos não sabem, no entanto, se essas duas horas serão descontadas da carga horária de trabalho de 8 horas diárias.

Os médicos estão alojados no Centro de Educação Física da Marinha (Cefam), na Penha, zona norte, a 15 km do Centro Cultural Banco do Brasil, no centro, onde assistem às aulas. "É uma instalação militar, não é um hotel. Mas é confortável", afirmou o português Miguel D'Agorreta, de 70 anos.

Em Pernambuco, o treinamento foi aberto com poesia de cordel. Muitos garantiram ter entendido a mensagem, embora não tenham domínio de todas as palavras. A rotina se repetirá nos próximos 21 dias. Alojados em unidades do Exército, no Recife, acordam às 5 horas e, às 6h30, seguem para Vitória de Santo Antão, a 50 km da capital. Têm aula das 8 às 18 horas e retornam ao alojamento.

Enquanto os cubanos disseram ter aprovado as acomodações e a alimentação nas dependências do Exército, o espanhol Bladimir Quintan Remedios, de 49 anos, reclamou da comida e do pequeno espaço, que não dispõe de mesa para estudo. "De manhã é leite com aveia, e no almoço é feijão e frango frito." O tempero? "Militar", disse entre risos.

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