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Preparadas para ter uma carreira, mulheres que penam até na hora de ligar a lava-roupas buscam consultorias de donas de casa à moda antiga

Valéria França, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

A empresária Patrícia Pires, de 39 anos, até hoje tem medo de panela de pressão. Também encontra dificuldade em deixar os armários da cozinha impecavelmente organizados. E não consegue fazer com que a empregada cumpra uma rotina eficiente para que a casa esteja sempre um brinco. Patrícia morou com os pais até se casar, há quatro anos, e confessa: "Nunca me interessei pelos afazeres de casa, mas agora não tenho escapatória."

Patrícia não está sozinha: um grupo de paulistanas encontra nas tarefas do lar um desafio maior até do que na própria profissão. O site Casa da Cris, com dicas que vão de tirar manchas de roupas a organizar uma festa, tem 5 mil acessos por dia. No mercado, há livros, programas de TV, workshops e até um novo tipo de profissional, a personal assistance.

Por trás de cada uma dessas atividades estão mulheres criadas à moda antiga. Quando meninas, aprenderam com as mães a serem donas de casa. Hoje, ensinam a lavar, passar, limpar, organizar um cardápio e dão toques até de economia doméstica. O valor da consultoria depende do serviço prestado.

"Hoje em dia as moças são educadas para serem profissionais", diz a personal assistance Heloisa Sundfeld, de 68 anos. "Algumas mães acham que elas não precisam aprender (as tarefas domésticas). É um engano. Até para mandar é preciso saber como o serviço deve ser feito", afirma. Heloisa costuma ser chamada para tirar muitas mulheres independentes e bem resolvidas de um grande apuro doméstico.

Foi o caso da dentista Kátia Heleno, de 43 anos, que saiu da casa dos pais aos 35 anos, quando resolveu se casar. Tudo ia bem até o dia em que a eficiente empregada, que resolvia tudo em casa, foi embora. "Eu não sabia nem ligar a máquina de lavar roupa. A situação piorou no dia em que meu marido me pediu para passar uma de suas camisas", conta Kátia. Ela demorou mais de 20 minutos para terminar, mandou as outras para a lavanderia e pediu socorro a Heloisa, que passou a dar aulas para a dentista e depois para a nova empregada. "Ensino que lavar a roupa não é encher a máquina de sabão, por exemplo. Aliás, muito sabão deixa a roupa dura", diz.

A violência e a preocupação com a qualidade de vida são outros motivos que fizeram com que muitos paulistanos despertassem novamente o interesse pela casa. "Reunir os amigos em um restaurante já não é o melhor programa", diz Beth Kövezi, dona da escola de culinária Wilma Kövezi (www.wkcozinha.com.br). Comida trivial (seis aulas por R$ 890) e saladas (R$ 185 a aula) são cursos concorridos.

"Tem muita mulher que paga o curso também para a empregada", diz Beth. Por que elas não mandam só a auxiliar doméstica para a escola? "Elas sabem que um dia a empregada vai embora. E é melhor estar preparada para quando esse dia chegar."

Armários. Muitas lojas passaram a dar consultoria gratuita às clientes porque enxergaram no serviço uma necessidade de mercado. A Kitchens, especializada em cozinhas planejadas, manda um consultor para ensinar as clientes como aproveitar melhor os espaços dos armários.

A consultoria serve para as clientes inexperientes e para quem gosta de estar atualizado, mas não tem tempo para pesquisar. "Ensinamos a conservar, por exemplo, um edredom de pena de ganso, para que ele não vire um pano de chão numa lavagem equivocada", diz Mirian Gotfryd, dona da Blue Gardenia, uma casa de enxoval. "Antes havia cliente que chegava perguntando como montar uma cama igual à em exposição na loja. Hoje vamos às casas delas ensinar."

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