'Não preciso de muito para viver. Com R$ 4 por dia a gente se vira'

Na rua desde 1994, sem-teto consegue roupas em bazares e tem lista de locais onde fazer refeições e tomar banho

O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h01

"Não vou para o albergue, porque não aceito me submeter a ninguém. Sou da maloca desde 1994. Aqui é só bebida e gandaia." Assim se descreve Alan (nome inventado por ele na hora), de 32 anos, morador do Largo de Santa Cecília, na região central. Barbeado, de cabelo penteado e bem-vestido, ele relatou seus truques e manhas para viver nas ruas da capital.

"Anota aí", dizia ele a todo momento, enquanto dava suas lições de como viver na rua. "As roupas eu pego no bazar beneficente da igreja." Depois, ele começou a enumerar, por dia da semana, os locais onde toma café da manhã, almoça e janta. "Anota aí. Material de higiene: tenda", afirmou, em tom professoral.

"Não preciso de muito dinheiro para viver. Com R$ 4 por dia a gente se vira, né?", perguntou para a parceira, uma jovem de 17 anos que diz que cresceu na rua e já morou na Praça da Sé.

Hoje o casal vive perto da Igreja de Santa Cecília. "Ela é minha mulher e eu dou tudo para ela. Comida, bola, tudo", disse, fazendo carinho na moça e mostrando uma bola de brinquedo.

Há muitos casais nas ruas. Mas eles não estão nos planos da Prefeitura. Não há albergues mistos na cidade. A regra é clara: homens ficam sozinhos, mulheres podem ficar com os filhos.

"Não vou para albergue, porque não posso ficar com meu marido lá", disse a copeira desempregada Cristiane Aparecida Vernizzi, de 38 anos. Ela dorme na frente de um dos centros de convivência da Prefeitura, na Rua Apa.

Separação. O argentino José Castro, de 42 anos, pintor desempregado, foi parar nas ruas justamente após uma separação - justificativa alegada por 5,9% dos entrevistados na pesquisa. "Deixei tudo, minha casa montada, no Rio de Janeiro", contou.

Agora, ele diz que luta para conseguir uma vaga fixa em um dos centros de acolhida de São Paulo. "Estou aqui há três semanas e já dormi em 15 albergues diferentes", afirmou. "Se eu fosse ex-presidiário, aí sim conseguiria uma vaga fixa, porque eles têm prioridade. Se é uma pessoa como eu, que nunca esteve na rua antes, aí a coisa fica difícil", reclamou o argentino. / A.R.

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