''Não pensava em nada. Só gritava''

Rosemeire Branca, mãe do bebê arremessado do carro durante assalto

Entrevista com

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

A contadora Rosemeire Branca, de 40 anos, não sabe que rosto tinha o bandido que acertou três tiros de pistola 9 milímetros nas costas do marido, o administrador de empresas Maurício Dini Kliukas, de 40, durante uma tentativa de assalto na quarta-feira passada ao Peugeot 307 do casal, no Jaçanã (zona norte de São Paulo).

Rosimeire, que estava no banco de trás do carro com a filha de 25 dias, diz que só conseguia gritar. Mesmo ferido, Maurício acelerou por dez quilômetros, mas acabou perdendo os sentidos. O carro capotou e o bebê foi atirado a 20 metros.

Depois de dois dias em observação, a criança recebeu alta ontem. Durante a entrevista da mãe, por telefone, chorava muito. Maurício permanece internado em observação no Hospital Itacolomi, em Guarulhos. Seu estado ainda é grave.

O que você faria se encontrasse o bandido?

Não vi o rosto dele. Ou, se vi, não me lembro. Eu e meu marido estávamos virados para o outro lado, pedindo informação, quando ele surgiu. O assaltante pensou que meu marido havia reagido, porque o pé dele escorregou do pedal e o carro deu um tranco.

Você sente raiva?

Não. Não consigo sentir nada por alguém que não conheço.

Como a criança reagiu na hora do assalto?

Começou a chorar porque me viu muito nervosa.

Você a pegou no colo?

Não. Ela ficou o tempo todo no bebê conforto.

Mesmo no banco de trás, você sabia que seu marido estava tão ferido a ponto de perder a consciência?

Sim. Ele me explicou que estava indo na direção do Hospital da Vila Maria, que era o mais perto dali.

Quando o carro capotou, você e seu marido ficaram presos nas ferragens. Você desmaiou?

Fiquei acordada o tempo todo.

O que pensava?

Não pensava, estava desesperada. Só gritava.

Achou que tinha perdido sua filha?

Num momento assim, você fica muito ansiosa, quer que tudo aquilo passe logo. E, apesar de tudo se passar muito rápido, não é tão rápido quanto você precisa. Daí o desespero. Você não consegue "achar" muita coisa na hora.

Quem os socorreu?

Um rapaz evangélico que estava passando.

Você é evangélica?

Não. Acredito no evangelho, mas sou espírita.

Como foram socorridos nos hospitais?

O primeiro, que eles chamam de "Vermelhinho" (Hospital de Vila Maria), era tão "desequipado" que os próprios médicos pouco puderam fazer. Nem mesmo o aparelho de raio X funcionava. A radiografia da minha filha era um filme preto. Os médicos eram excelentes, da Escola Paulista de Medicina, mas não podiam fazer nada além de acompanhar desesperados a hemorragia do meu marido. Mal conseguiram fazer um dreno no pulmão dele.

Por que vocês foram parar em hospitais diferentes?

Porque nossos convênios são diferentes.

Há quanto tempo vocês estão casados?

Pouco mais de um ano.

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