Não me confunda!

Você sabe com quem está falando? Tem certeza? Então veja:

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

27 Março 2011 | 00h00

Em Manaus, um livreiro soube que eu estava na cidade e fez questão de que eu fosse conhecer a casa. Com mil rapapés, rebocou-me até o fundo da livraria, onde me esperava um enfarpelado grupo de senhores e senhoras - e, solenizado, apresentou: "Temos a honra de acolher entre nós o grande Nelson Werneck Sodré!" Agradeci a homenagem, a rigor póstuma, pois fazia anos que o crítico e historiador marxista - remoto parente com quem jamais troquei palavra - estava morto. Instalou-se na roda um suarento, viscoso, amazônico mal-estar, que me esforcei por desfazer com umas graçolas desenxabidas e a informação de que, embora não chegasse aos pés do primo Nelson (ou aos coturnos, já que ele foi também general), eu tinha lá meus livrinhos. O livreiro, que não via como me ressarcir daquele mico, apanhou a deixa: correu ao computador e, num alegrão desproporcional ao achado, anunciou que tinha livros meus. Foi também como compensação, tenho certeza, que os circunstantes arremataram todos os exemplares. Graças ao finado homem de letras & armas, esgotei em Manaus.

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Meu consolo é o que se passou com um grande crítico literário, dos maiores que já tivemos. No começo da carreira, ele desembarcou numa cidade do interior paulista, para falar sobre um dos mestres do seu ofício, morto fazia mais de meio século. Foi recebido com banda de música e oratória de prefeito: "Bem-vindo à nossa terra, Sr. Sílvio Romero!"

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No Chile, só os tontos confundem Isabel Allende com Isabel Allende. Primas em segundo grau, uma delas é a escritora, e a outra - filha do ex-presidente Salvador Allende -, deputada. Longe da pátria, porém, cada uma já se habituou a ser tomada pela xará. "Se um jornal italiano publica reportagem sobre uma passeata comunista, quem esteve lá foi a outra Isabel, mas a foto que sai é a minha", contou-me a escritora. "O FBI deve ter um enorme arquivo meu com tudo o que a prima faz..." Calejadas, as Isabéis combinaram não desmentir nada: "Se pedem a ela um autógrafo num livro meu, ela dá; se me perguntam se estive numa passeata, digo: "Estive!"

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"Parente dele?" - indagou, chorosa, a jovem senhora, no elevador que nos levaria ao velório. Colega, esclareci; tínhamos trabalhado juntos em mais de uma redação. Foi o que bastou para que a criatura - "muito amiga da família" -, aos soluços, se dependurasse no meu braço, do qual não mais se desgrudou. Estranhei que não houvesse multidão no velório de jornalista tão notório. Só uma capela estava ocupada, e por ela nos embarafustamos. Lá estava o colega, em sua definitiva edição. Quanto estrago fazem o tempo e a doença, constatei, à beira da filosofança, e detive o olhar nas mãos cruzadas, gordinhas e de dedos curtos - dedos que, de tanto martelar as teclas da máquina de escrever (sim, vínhamos daquele tempo), acabaram rombudos. Sempre agarrada a mim, a outra chorava, agora a todo pano, e foi nesse estado que a conduzi à entrada da capela, ansioso por assinar a lista de presença e dar o fora. Já tinha sacado a caneta quando li o nome do falecido - e então me dei conta de que tudo o que havia de comum ao meu defunto e ao ali presente eram umas poucas vogais e consoantes. Mal informado sobre o horário do enterro, eu me enganara de morto. "Bem que eu achei ele tão mudado!", tartamudeou minha acompanhante, que também se equivocara. "Eu devia ter desconfiado, aqui não tem ninguém que eu conheça..." Vamos embora, propus - e já íamos saindo quando ela fez meia volta. "Eu fico", comunicou. "Preciso dar uma força pro pessoal."

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Por fim, não custa lembrar o desdobramento meio pastelão de uma história que já contei - a do dia em que ouvi no rádio o anúncio do meu falecimento, ou melhor, de alguém chamado Humberto Werneck. Tempos depois, a minha entrada, vivo e saudável, numa lanchonete, por pouco não mata um conhecido, que me julgava retornado ao pó. No susto, deixou cair a cerveja.

Prova de que é possível você ser confundido com você mesmo.

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