TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

‘Não haverá nenhum aumento de impostos a curto prazo’, diz Covas

Tucano confia no avanço das desestatizações e, sem reforma da Previdência, terá foco na contenção de despesas

Entrevista com

Bruno Covas, prefeito de São Paulo

Bruno Ribeiro e Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Você não deverá vê-lo vestido de gari nas ruas da cidade nem assistirá vídeos com efeitos gráficos de suas agendas públicas nas redes sociais, mas poderá cobrá-lo de cada promessa feita pelo antecessor. Mais jovem prefeito paulistano desde a redemocratização, Bruno Covas (PSDB) assume hoje a Prefeitura de São Paulo em definitivo admitindo uma mudança brusca de estilo na gestão municipal, mas prometendo cumprir à risca o programa de governo lançado pelo agora ex-prefeito João Doria (PSDB). 

“É uma diferença de estilos, são pessoas diferentes. Tenho minha história, minha carreira, ele tem a dele. Agora, é o mesmo programa que foi combinado com a população durante a campanha, em 2016, as mesmas 53 metas que foram estabelecidas no plano aprovado pela Câmara Municipal”, disse Covas em entrevista concedida ao Estado ontem, ainda no gabinete de vice no Edifício Matarazzo, no centro. “Essa diferença de estilo não vai se refletir em diferença de ações da Prefeitura. É o mesmo avião, o mesmo destino, só muda o piloto”, completou.

O novo prefeito da capital, que completa 38 anos hoje, alega não ter as mesmas condições financeiras de Doria para manter uma equipe própria para comandar o marketing digital. Com apenas 2% do número de seguidores de Doria no Facebook, Covas também não é adepto das frases de efeito e é considerado por aliados mais previsível e menos centralizador do que o agora pré-candidato tucano ao governo.

Neto do ex-governador Mário Covas, que foi prefeito da capital entre 1983 e 1986 e morreu em 2001, Bruno, como é chamado na Prefeitura, tem perfil mais conciliador e temperamento mais sereno que o do avô. Ao contrário de Doria, orgulha-se de ser político desde a “juventude tucana”. Foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2006 e sempre se destacou pela atuação nos bastidores. Na gestão Doria, foi um dos responsáveis por distribuir os cargos de segundo escalão a indicados políticos de vereadores e deputados aliados. “Não estou preocupado com marca (de gestão), estou preocupado em implementar os programas e as metas que já foram estabelecidas com a Câmara e a população.” 

Futuro. O plano como prefeito é se descolar de forma discreta e gradual da sombra de Doria, com quem combinou de não fazer grandes mudanças no secretariado até julho, quando alguns titulares deverão sair para trabalhar na campanha do ex-prefeito a governador. Na segunda, deve anunciar apenas três trocas: o vereador João Jorge (PSDB) na Casa Civil, cargo que ele ocupava; a mudança de Marcos Penido de Obras e Serviços para Prefeituras Regionais, no lugar de Cláudio Carvalho, único que sai com Doria; e Vitor Aly na pasta que toca as obras.

Leia a entrevista a seguir:

João Doria foi eleito com um discurso de gestor, de ser diferente. O senhor é um político, que começou a carreira muito cedo, praticamente um político profissional em termos de atuação. Como essa diferença será refletida na cidade?

É uma diferença de estilos, são pessoas diferentes. Tenho minha história, minha carreira. Ele tem a história dele. Agora, é o mesmo programa, as mesmas metas, as mesmas dificuldades a serem vencidas. O programa que foi combinado com a população durante a campanha, em 2016, são as 53 metas que foram estabelecidas no programa de metas aprovado pela Câmara Municipal. Então, a diferença de estilo não vai se traduzir em diferença de programas municipais. A população certamente vai notar em algum momento a diferença entre um e outro, mas ela não vai notar diferença na atuação e no dia a dia da Prefeitura.

Isso inclui manter mutirões nos fins de semana, essas ações que o Doria fazia?

Vamos manter as ações de zeladoria no fim de semana. 

O prefeito, antes de sair, por causa de sua ações, foi alvo de duas ações em que o Ministério Público teve liminares favoráveis, com relação ao Cidade Linda e à logomarca do Acelera. Como vai ser sua atuação?

Nós temos um projeto na Câmara Municipal para permitir o nome Cidade Linda. A gente espera que a Câmara possa aprovar o projeto. Decisão judicial a gente não comenta, a gente respeita. 

Mas e investir nessa ação mais midiática em cada ato?

A população tem solicitado e tem todo o direito de ter o maior tipo de transparência possível. Ele (Doria) tinha, até porque tinha condições financeiras, uma equipe muito grande (paga por conta própria) para poder fazer esse acompanhamento. A equipe aqui (da Prefeitura) é mais enxuta. Mas eu vou fazer e vou continuar com esse tipo de relacionamento com a população. 

E na gestão? Até aqui, os recursos têm sido liberados a conta-gotas. Continuarão?

Do ponto de vista fiscal, a situação é a mesma. Não tem varinha de condão. A situação fiscal permanece em grande dificuldade. A gente espera, com o programa de desestatização, ter recursos para investimento na cidade de São Paulo. O orçamento já foi elaborado prevendo recursos de investimento exatamente como fruto dessa desestatização, em especial por conta da venda do Anhembi. Comemoramos ontem a aprovação em primeira votação da autorização legislativa para a elaboração do PIU (Projeto de Intervenção Urbana), para poder aumentar o potencial construtivo e o valor daquele espaço. 

O prefeito fez várias viagens, alegando justamente atrair investidores. E o senhor?

A SPNegócios tem uma agenda de reuniões internacionais para apresentar o programa de desestatização. Então, vou participar de alguns encontros, não sei de todos. 

A meta no Orçamento deste ano é obter R$ 1 bilhão com as desestatizações. O senhor acha que será possível cobrir?

Para o Anhembi, o secretário Wilson Poit tem recebido uma quantidade considerável de empresários interessados em adquirir aquele espaço. E você tem o programa de concessão de parques, que não tem o aporte de recursos, mas tem a liberação de verba que iria para manutenção. Acho que a gente pode chegar a um valor muito próximo e talvez até ultrapassar R$ 1 bilhão. 

Recentemente, houve a tentativa de reforma da Previdência, em que o governo não obteve votos necessários. Como avalia a Câmara hoje? A base está rachada? Como ficará a situação eleitoral, que parte dos partidos não dará apoio a Doria? 

A base aliada não é a base do palanque do Doria nem do palanque do Alckmin, que são meus candidatos a governador e a presidente. A Prefeitura independe disso – é baseada na governabilidade e na relação com a Câmara. A decisão dos vereadores de não votar a Previdência é uma decisão que implica algumas consequências, do ponto de vista de ter de retirar mais recursos de outras áreas para poder pagar o déficit, que neste ano deve chegar a R$ 5,8 bilhões. É a escolha política que a Câmara fez, diferentemente do que era a escolha política do Executivo. Gostaria que a reforma tivesse sido aprovada, mas é decisão deles (dos vereadores), não tem nenhum problema. Respeitamos a decisão da Câmara e vamos reorganizar o dia a dia da Prefeitura com base na decisão. 

O senhor cogitou a possibilidade de aumentar impostos com essa decisão da Câmara? No ano passado, a Secretaria da Fazenda tinha preparado um estudo para a revisão da Planta Genérica de Valores (que corrige o Imposto Predial e Territorial Urbano), mas praticamente congelou o IPTU…

A não aprovação da reforma da Previdência contempla três possibilidades: ampliação de tributos, maior contenção de despesas, não pagamento das aposentadorias. Hoje, dessas três alternativas, estamos trabalhando única e exclusivamente com a maior contenção de despesas. Não haverá aumento de impostos a curto prazo ou qualquer tipo de contenção de pagamentos de aposentadorias, como está fazendo por exemplo o Rio de Janeiro. É uma das possibilidade, mas não é a possibilidade com que estamos trabalhando. 

O senhor é conhecido por sua habilidade nos bastidores. Os vereadores o apontam como a pessoa que distribuía cargos dentro do governo. Vai continuar a dar cargos a vereadores de partidos que são da base hoje ou que venham a ser? 

A relação entre Executivo e Legislativo é uma relação republicana, aberta e transparente. Não se faz nada escondido, nada por baixo dos panos. A gente não faz nada com base em toma lá, dá cá. É uma relação daqueles que querem participar, querem se comprometer com os compromissos, com as metas assumidas por essa gestão, e participam do governo. 

Mas essa distribuição de cargos não é toma lá, dá cá?

Não. A partir do momento em que os vereadores não querem mais colaborar com a implementação de um programa de governo, não tem sentido eles participarem desse governo.

Existe algum projeto que sua gestão queira propor ao Legislativo ou implementar na cidade?

Volto a dizer: a diferença de estilo, a diferença de histórico, de cada um dos dois nomes, o meu e o do Doria, não vai se refletir em uma diferença de ações da Prefeitura.

Em um caso específico, o prefeito Doria anunciou o fim da Cracolândia, depois recuou. O senhor pretende acabar com ela até o fim do mandato?

Seria um sonho de qualquer gestor a gente poder comemorar isso. Não tem como estabelecer uma meta, amanhã ou daqui a um mês. 

Em outubro, o senhor foi afastado da Secretaria das Prefeituras Regionais em um contexto de críticas a falhas na zeladoria, de varrição, limpeza, tapa-buraco...

Primeiro, essas fofocas todas não condizem com a realidade. Naquela época que acabei saindo da secretaria, um dos itens mais bem avaliados pela população era a própria varrição. A situação ainda não estava perfeita, mas estava melhor do que nós encontramos (no início da gestão). 

E como ficará a relação com o Tribunal de Contas do Município, que vem contestando algumas ações da atual gestão?

Acho que eles (os conselheiros) prestam um excelente trabalho e vou marcar uma visita ao tribunal (para esclarecimentos) logo na primeira semana. 

O senhor vai participar ativamente das campanhas de Doria ao governo do Estado e de Geraldo Alckmin à Presidência?

Fora do horário de serviço, certamente o militante Bruno Covas, que é tucano de carteirinha, vai fazer campanha para os seus candidatos. Durante o horário de trabalho, há dedicação exclusiva à Prefeitura

E já pensa em reeleição em 2020?

Eu penso em fazer um bom governo. Penso em um curto prazo em poder resolver os problemas da cidade de São Paulo.

E quais são os problemas mais graves da cidade?

Hoje nós temos um problema grave de mobilidade. O tempo que as pessoas perdem no trânsito é muito grande, afeta demasiadamente a qualidade de vida da população. E não posso sossegar enquanto a gente não terminar com a fila da creche na cidade de São Paulo. Acho que educação, saúde e mobilidade são claramente os principais desafios na cidade de São Paulo.

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