Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

'Não gosto de albergue; me sinto em casa na rua'

Muitos em São Paulo preferem seguir as próprias regras, e não as dos abrigos municipais; histórias têm em comum perdas e abandono

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Mesmo sob frio, o morador de rua Claudemir Cassiano, de 41 anos, não aceita abrigo nenhum. “Sou livre. Não gosto de ter hora para entrar e sair, hora para comer, hora para tudo”, disse ele, em uma rua na Vila Leopoldina, zona oeste da capital. “Gosto de fazer minhas regras.”

Não que seja imune: dentro do barraco montado por Cassiano há cinco cobertores e travesseiros, todos recebidos em doações. “A gente tem de ir juntando porque os ‘rapa’ (guardas-civis e funcionários das subprefeituras), quando passam, levam tudo, até coberta e colchão.”

É esta vida, das avenidas e dos becos, que o homem leva desde que se viciou no crack, há 14 anos. Tudo começou em um samba com os amigos. “Todo mundo estava usando cocaína e eu quis experimentar também.” Logo foi para outras drogas e usou a primeira pedra. Abandonou mulher e filhos para, segundo diz ele, não dar mau exemplo. Dia desses, encontrou a mais nova, de 17 anos, durante as andanças pela zona oeste. “Eu sou maloqueiro, minha filha. Sou mesmo. Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”, disse.

O conflito com o crack também fez a moradora de rua Ana Paula dos Reis, de 31 anos, grávida de 2 meses, preferir o chão frio à cama de qualquer refúgio. “Não gosto de albergue. Eu me sinto mais em casa na rua. Já conheço as pessoas e posso usar (droga) à vontade.”

Ana Paula namorou um traficante aos “20 e tantos anos” e ele a sustentava, junto com os cinco filhos que tinham. Quando o homem morreu, ficou desesperada. Foi aí que apelou para a prostituição. “Não podia deixar meus filhos passarem fome.” Mas a vida que levava incomodou seus irmãos e vizinhos próximos, que a denunciaram para o conselho tutelar. Dois filhos foram levados para a adoção e os outros três ficaram com a família. “Estão na Bahia.”

Assim como os colegas, reclama de guardas e funcionários das subprefeituras. “Levaram todos os meus documentos. Eu já tenho pouca força de vontade para sair dessa vida. Aí eles vêm e pioram tudo.”

Sem opção. Já nas casas de atendimento o perfil dos frequentadores é diferente. O pintor Manoel Oliveira Neto, de 54 anos, está desde 2010 nas ruas. Viu um casamento de 27 anos desmoronar da noite para o dia e, dali em diante, entrou em depressão. “Comecei a andar na rua, sem rumo.”

Ele vive, desde o ano passado, no abrigo Zancone, na zona oeste da cidade. “Passo o dia jogando dominó, jogando baralho, vendo televisão”, disse. Neto até tentou recorrer aos filhos. “O mais novo, de 17 anos, me pediu que comprasse um celular para ele me ligar. Eu juntei dinheiro e comprei. Mas ele nunca me ligou”, lamentou.

Francisco Cesário, de 66 anos, está há seis meses no mesmo abrigo de Neto. Um problema no coração o impediu de continuar a trabalhar. “Eu até tenho família, mas não queria que me vissem assim. Não vejo minha filha há uns 10 anos e nem quero que ela me veja. A vida na rua é cruel. Sou idoso. Minha única diversão é pegar o ônibus, ir até o final e voltar.”

Frio e abuso de álcool aumentam risco de morte

Segundo o diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), Edson Stefanini, a população de rua costuma abusar do álcool, imaginando proteger-se do frio. “O que é falso. Na prática, isso apenas contribui para o risco de sofrer de hipotermia e morrer.”

Segundo ele, o consumo de alimentos quentes e o uso de agasalhos ainda são a melhor maneira de se proteger contra as baixas temperaturas – o que é um problema quando se analisa a situação de rua. “É importante destacar, também, o papel das vacinas contra gripe e pneumonia nesses pacientes, para reduzir infecções.”

Stefanini explicou que idosos e portadores de doenças crônicas no coração apresentam maior chance de desenvolver complicações no frio. Conforme registros do Instituto Médico-Legal, seis corpos foram encontrados ao relento em São Paulo neste mês e as causas da morte – que podem incluir problemas do coração e broncopneumonia – são investigadas. 

Para o médico, o ideal seria “que as pessoas que ficam expostas ao frio se mantenham agasalhadas, periodicamente aquecendo-se em um ambiente mais protegido, além de cuidar de alimentação e sono”. /ALEXANDRE HISAYASU

De Braços Abertos ganha 500 vagas espalhadas pela capital

Em conjunto com as medidas anunciadas para atender os moradores de rua da cidade durante as noites de frio, o prefeito Fernando Haddad (PT) anunciou também mais 500 vagas no programa De Braços Abertos, que oferece trabalho, moradia, alimentação e remuneração a dependentes químicos da cracolândia, na região central.

Parte das novas vagas será oferecida para pacientes que já estão na fila de espera do programa, na própria cracolândia, que hoje é de 220 pessoas. O restante será oferecido para dependentes de crack de outras regiões da cidade. 

A ideia é que as novas vagas de hotéis, para onde os pacientes são encaminhados, não sejam mais na região da Luz, base do programa. Há, nos locais atuais, queixas de furtos de maçanetas, chuveiros e outros bens. “O hotel na Freguesia do Ó (na zona norte) funciona melhor”, disse o prefeito.

Com a ampliação de vagas, a Prefeitura espera reduzir o número de moradores de rua que não aceitam o encaminhamento para abrigos, mesmo nas noites de frio intenso. 

Pesou na decisão também, segundo Haddad, a divulgação de estudo da Open Society Foundations – uma organização americana –, que afirmou haver uma redução de até 80% no consumo de pedras de crack entre os pacientes do programa da Prefeitura. /BRUNO RIBEIRO

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