'Não estou tão otimista em relação à cracolândia'

Secretária nega que ação da PM prejudique trabalho médico, mas não arrisca um prazo para o fim do uso de drogas no centro

Entrevista com

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 03h05

Nove meses depois de a Polícia Militar cercar a cracolândia, o governo ainda não conseguiu acabar com as idas e vindas de consumidores de crack. Segundo a Secretaria de Justiça e da Defesa da Cidadania, 100 policiais ainda atuam diariamente na região. Antes do início da Operação Centro Legal, quando apenas agentes de saúde e assistentes sociais circulavam por lá, 25% dos atendidos, em média, recebiam alta médica nas clínicas terapêuticas e no Serviço de Atenção Integrada ao Dependente (Said). Depois do ingresso da PM, esse número caiu para 12%. Para discutir a operação e a ação da PM, o Estado conversou com a secretária da Justiça, Eloísa de Souza Arruda.

A senhora acha que a ação da PM contribui para que houvesse menos altas médicas?

Não. O índice das pessoas que desistiram do tratamento é semelhante ao de outros lugares que lidam com usuários com problemas de crack - em torno de 20%. O restante desiste do tratamento no meio do caminho. Esse índice está dentro do padrão internacional de quem trata de usuário de crack. É um trabalho desafiador.

Qual tem sido a maior dificuldade na ação?

O problema é que muitos não querem sair. A vontade da pessoa é fundamental. Se você internar no (Hospital Albert) Einstein e ela não quiser, volta para a cracolândia. Teve um caso que eu acompanhei de perto. Uma mãe falou comigo durante uma operação que fizemos. O filho foi internado em uma clínica boa do ABC. Ele saiu, a mulher recebeu acompanhamento psicológico. O ex-patrão o recebeu de volta. Na semana passada, a mãe me ligou chorando porque o filho voltou para a cracolândia.

No começo da operação, o governo chegava a falar em prazos para o fim da cracolândia. Passados nove meses, vocês conseguiriam arriscar um prazo para decretar o fim da cracolândia?

Naquele primeiro momento, talvez eu estivesse mais otimista. Hoje eu não estou mais tão otimista como antes em relação à cracolândia. Não arriscaria um prazo. Mas acho que estamos no caminho certo. Vamos manter a atuação da PM. Assim como a Prefeitura deve continuar com investimentos em saúde e na área social. O propósito continua o mesmo: queremos acabar com a cracolândia. Só não vou te dizer uma data para que isso ocorra.

Uma das principais discussões no Congresso na atualidade é a reforma do Código Penal. Qual sua opinião sobre a descriminalização do consumo?

Pessoalmente, eu sou contra a descriminalização do consumo. Isso não significa que defenda que o consumidor de droga deva ser mandado para a prisão. Existem outras formas de sanção. E creio ser importante que o usuário assuma um compromisso perante a Justiça. Esse compromisso pode ser, por exemplo, o de iniciar um tratamento. É importante que ele compreenda a proporção que o uso de drogas tem em sua vida. O compromisso perante a Justiça pode ser um fator para incentivar que ele mude de vida.

Como ocorre essa relação entre usuário e Justiça nos dias de hoje?

Quando o usuário é pego com droga, ele é levado para a delegacia, assina um termo circunstanciado e vai para a rua. Ninguém quer que essa pessoa seja presa. Mas a Justiça seria um meio de levá-lo a assumir um compromisso de tratamento. Isso teria ajudado na melhora dos resultados da operação.

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