'Não estou entendendo nada', dizia copiloto

Tripulação fez 'voo às escuras'; sem descompressão, passageiros não sabiam o que ocorria

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Os últimos três minutos e meio do voo 447 no Oceano Atlântico foram marcados pelo desconhecimento. A revelação foi feita por Jean-Paul Troadec, diretor do BEA. Segundo ele, as gravações das caixas-pretas não dão sinais de que os passageiros estivessem cientes do que ocorria. Na cabine, não houve despressurização nem queda das máscaras de oxigênio. Não houve pânico.

Já o cenário na cabine de passageiros contrasta com a cabine de comando. Nela, os copilotos e, mais tarde, o piloto Marc Dubois sabiam que uma pane eletrônica grave estava em curso e a situação exigia procedimentos de emergência. Mas eles não tinham a exata noção de que a aeronave caía vertiginosamente em direção ao mar.

Os problemas no voo tiveram início às 2h10min05s - hora de Greenwich (23h10 no Brasil) -, quando o piloto automático do avião se desligou. Nesse mesmo instante, um dos copilotos assumiu o comando da aeronave. "Eu tenho o controle", afirmou, de acordo com a caixa-preta.

Com base nesses dados incongruentes, as primeiras decisões foram tomadas pela tripulação. E essas deliberações foram feitas às escuras, como mostram as gravações. As 2h10min16s, um copiloto disse: "Nós perdemos as velocidades". A seguir, ele diz: "Modo alternativo", informando que os sistemas eletrônicos de proteção contra perda de sustentação estavam desligados.

Inclinação. O avião ganhou então inclinação de 10 graus e tomou trajetória ascendente. Nesse momento, o piloto da aeronave, Marc Dubois, não estava em seu assento - estava em pausa de repouso regulamentar. Às 2h10min50s, os copilotos tentaram chamar Dubois. Em um momento, um dos copilotos exclamou: "Eu não estou entendendo nada".

Sustentação. Às 2h10min51s, o alarme de perda de sustentação foi acionado mais uma vez. Ao término de um minuto, a incoerência de velocidade desapareceu e os motores continuaram a funcionar, como sempre estiveram até cair.

Às 2h11min40s, o comandante entrou na cabine. "Nos segundos que se seguem, todas as velocidades registradas tornam-se inválidas e o alarme de perda de sustentação para", explica o relatório, detalhando mais à frente: "As ordens do copiloto (nas gravações) foram principalmente para "elevar o nariz"". Essa decisão teria sido determinante para que o avião perdesse sustentação, iniciando os últimos 3 minutos e 30 segundos do 447 em direção ao mar.

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