‘Não é perigoso isso? Saberem que ganho R$ 13 mil?’

Divulgação de salários causou revolta entre servidores da Câmara, que nesta segunda-feira já prometiam recorrer à Justiça para tirar lista de site

Diego Zanchetta e Rodrigo Burgarelli - O Estado de S. Paulo,

04 de junho de 2012 | 22h51

SÃO PAULO - Não havia outro assunto nesta segunda-feira, 4, nos corredores do Palácio Anchieta, no centro de São Paulo. Funcionários indignados prometiam ir à Justiça contra a divulgação dos salários. Outros diziam temer pela segurança após a lista ser publicada na internet. "Pego ônibus para voltar até Cidade Ademar. Pensa que não é perigoso isso? Vão saber que eu ganho R$ 13 mil, o setor e andar que eu trabalho", disse uma técnica legislativa à reportagem.

Entre os procuradores, donos dos maiores vencimentos da Casa, a revolta era ainda maior. "Transparência não é colocar em risco a vida do servidor público. Todo mundo está com medo. Vamos buscar a Justiça, igual fizeram servidores da Prefeitura", disse à reportagem um procurador com duas décadas de trabalho e salário de R$ 18 mil mensais líquidos.

Um deles acrescenta que a categoria estuda até fazer uma "greve branca" contra a presidência da Casa. "Se eu me sentir ameaçado, paro de assinar parecer de legalidade no outro dia."

"A Câmara não dá nenhum respaldo para a segurança da minha família. Então os salários não poderiam ser divulgados", disparou um técnico legislativo. A divulgação feita no sábado, porém, não pegou os funcionários de surpresa. O presidente José Police Neto (PSD) havia comunicado em plenário há duas semanas que seguiria o exemplo da Prefeitura, que divulga seus salários desde 2009.

Alguns servidores também falavam nesta segunda em medo de sequestro e roubos. Uma servidora chegou a abordar a reportagem e pediu que seu nome não fosse divulgado em nenhuma matéria. "Não é porque vocês jornalistas querem notícia que nós precisamos andar com medo nas ruas. E vê se não divulga meu nome. Se você divulgar, eu te processo", disparou uma assessora.

Apoio. Entre os vereadores, o apoio foi quase unânime. "É salutar cumprir essa medida, não vejo problema algum", disse Milton Leite (DEM). "O salário de deputado já é divulgado, de vereador também. É natural essa medida, chega tarde até. O servidor tem de entender que é uma contrapartida na carreira prevista agora em lei", argumentou.

Claudio Fonseca, líder do PPS, também defendeu a divulgação. Autor da reforma administrativa de 2003, que cortou parte dos supersalários do Legislativo à época, ele lembrou que há dez anos havia aposentado que recebia R$ 92 mil mensais. "A situação já foi bem pior. E acho que hoje ainda existem excessos. Existem benefícios cumulativos que não são ilegais, mas são contrastantes com aquilo que ocorre no mercado", apontou.

Ex-presidente da Câmara, Antonio Carlos Rodrigues (PR) endossou. "Acho normal a divulgação, não existe nada de ilegal, são benefícios amparados por lei, não entendo por que os servidores estão nervosos", disse. Donato (PT) também concordou. "Toda medida de transparência tem de ser defendida."

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