'Não dá para esperar chuva bater à porta'

Análise: Eder Paulo Spatti Junior

GEÓGRAFO, MESTRE EM GEOCIÊNCIAS PELA UNESP, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2013 | 02h01

Em 1956, o professor Aziz Ab'Sáber escreveu um artigo no qual dizia que apenas uma pequena parcela do organismo urbano de São Paulo conseguia transpor a faixa das grandes planícies de inundação dos Rios Pinheiros e Tietê e dos morros da Serra da Cantareira. Passados quase 60 anos, a cidade estrangulou as margens desses rios, canalizou os córregos e ocupou as vertentes a esmo, além de as favelas terem "escalado" a serra.

A cada verão (e somente a cada verão, infelizmente), essas áreas, que ao longo do ano são chamadas de ocupações irregulares, voltam a ser chamadas de áreas de risco. Fernando Haddad (PT) lançou sua primeira ordem interna dando total atenção à desocupação das áreas de risco, destacando o que se chama de remoção preventiva, ainda que a remoção tenha de ser feita mediante ordem judicial ou com uso da Guarda Civil Metropolitana ou da Polícia Militar. Ou seja, uma questão de planejamento urbano transforma-se, com a chegada das chuvas, em caso de polícia. O destino das famílias seriam abrigos provisórios, habitações populares desabitadas ou auxílio-aluguel de R$ 500.

Curiosamente, há 7 anos o então prefeito José Serra (PSDB) em sua primeira ordem interna daquele ano determinou a mesma coisa. A remoção preventiva das áreas de risco. Seria de fato uma remoção preventiva se fosse feita ao longo do ano, já que a Prefeitura tem os dados de todas as áreas de risco mapeadas.

É condição natural de um rio ocupar o leito maior na época das chuvas, assim como a ocorrência de movimentos de massa nas encostas. O que não é natural é uma cidade com 31 subprefeituras considerar essas áreas como sendo de risco só quando os temporais batem à porta.

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