Não basta um megaevento

ARTIGO

Ricky Burdett, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Megaeventos como Olimpíada ou Copa do Mundo podem criar grandes obras arquitetônicas, mas individualmente não fazem uma grande cidade. Para produzir uma mudança real, há necessidade de uma visão urbanística abrangente. E, para que essa visão se concretize, precisa ser dirigida politicamente desde o topo do poder e compartilhada pelas várias instâncias públicas da cidade - do prefeito aos habitantes.

Há poucas cidades no mundo cujo destino foi determinado por algum megaevento. A Olimpíada de 1992 certamente transformou Barcelona para melhor e espero que os Jogos de 2016 produzam consequências duradouras para o Rio. Mas nem sempre isso ocorre. Atenas realizou sua Olimpíada há seis anos e uma visita à cidade hoje mostra que todas as estruturas construídas - algumas por arquitetos considerados verdadeiros "ícones" - não passam de elefantes brancos isolados, impopulares. Edifícios e espaços não são utilizados, muitos têm janelas quebradas e estão se deteriorando. Trata-se de um desperdício extraordinário de recursos, que atribuo a mau planejamento e falta de visão, não a um projeto equivocado de elementos arquitetônicos individuais.

As Olimpíadas de Atlanta e Los Angeles, nos Estados Unidos, deixaram muito pouco. Na realidade, nem parece que elas hospedaram esses eventos. Já em Barcelona, os Jogos Olímpicos foram uma "desculpa" para regenerar toda a cidade e ligar mais uma vez seu centro histórico à área do porto. Foi a clara visão política do prefeito Pasqual Maragall que impulsionou o projeto, da concepção à realização.

À sua maneira, Londres tenta se tornar "uma Barcelona". Embora seja uma próspera cidade de 7,5 milhões de habitantes, a capital britânica tem vários problemas sociais e econômicos e há significativa escassez de habitações a preços acessíveis e desequilíbrio na qualidade de seus vários bairros. A metade ocidental é relativamente rica e bem servida por infraestrutura pública e de transportes, enquanto a metade oriental é relativamente pobre e carece de serviços como parques, escolas, educação, saúde e instalações esportivas. A expectativa de vida da população masculina, por exemplo, é cinco anos inferior no lado oriental, que nos últimos 200 anos recebeu várias ondas de imigrantes, mas sofreu em razão de escassos investimentos. Para Londres, a Olimpíada constitui uma oportunidade - ou desculpa - para mudar tudo isso nos próximos dois anos.

No meio do lado oriental está Stratford, hoje cheia de guindastes e caminhões. Lá se percebe imediatamente o impacto da decisão do governo britânico e da prefeitura de Londres de investir US$ 9,3 bilhões de dinheiro público na Olimpíada. Muitos locais de competição serão temporários, mas o investimento em infraestrutura será permanente. Apenas o velódromo, a piscina, o ginásio de atletismo e o estádio principal permanecerão depois de 2012, enquanto estádios de basquete e hóquei, piscinas de polo aquático e outras estruturas serão realocados, vendidos ou reciclados. O próprio estádio principal será reduzido de 80 mil para 25 mil cadeiras.

Londres 2012 está sendo projetado como os jogos "do legado em primeiro lugar", baseados numa concepção de ruas, praças, residências e jardins que casam com o DNA da cidade. Até 2006, a área de 2 mil m² era ocupada por galpões industriais e atividades econômicas pouco expressivas. O local foi limpo, torres de tensão e cabos foram retirados, milhões de toneladas de solo despoluídas. Também foi construída uma nova usina elétrica sustentável e foram criadas estradas e redes de esgoto.

Embora até 2012 devam ser construídas apenas 3 mil novas residências para os atletas, o Plano Diretor prevê a criação de um bairro para até 40 mil pessoas nos próximos 20 a 30 anos, com parque, novas escolas e centros de saúde.

Só saberemos ao certo nos próximos 20 a 30 anos se essa metodologia funcionará e se governo britânico e mercado conseguirão cumprir a próxima fase de investimentos. Estou otimista, com certa cautela. Mas Londres 2012 pelo menos acertou em termos de prioridade e infraestrutura. Espero que o Rio possa fazer o mesmo para 2016 e, o mais importante, para depois da Olimpíada. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.