Namoro, mar gelado e cantoria na vigília

Grupos de jovens enfrentam o frio e passam a noite espalhados pelas ruas e na areia de Copacabana

Tiago Rogero / Rio, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 02h05

Palco da maior festa de réveillon do País, a Praia de Copacabana está "acostumada" a ter ruas, areia e calçadão tomados por milhões de pessoas. Mas neste fim de semana foi diferente. No lugar do barulho dos fogos, oração e cantoria. Durante a vigília, de sábado para domingo, teve de tudo na madrugada de Copacabana: banho de mar à meia-noite (apesar do frio), casais namorando embaixo das cobertas, rodas animadas de violão, alemães com medo de roubo - e o cheiro insuportável dos banheiros químicos.

Mas o que parece ter ficado para os peregrinos foi a demonstração de fé. Logo no começo da noite, muitos já começaram a preparar seus dormitórios improvisados: sobre lonas, colocaram colchonetes, colchões infláveis, sacos e dormir e - apesar da recomendação da prefeitura para que não as levassem - muitas barracas.

Fiéis aproveitaram as grades usadas pela Força Nacional de Segurança, mais cedo, no isolamento do caminho por onde passou o papa Francisco no papamóvel, para demarcar seus espaços.

Na areia, um grupo de 12 jovens de Belo Horizonte, Fortaleza, Recife e Rio usava oito gradis para proteger a área onde se preparavam para dormir, bem perto da água. "Se o mar chegar? Aí a gente sai correndo!", sorriu o mineiro Danilo Santuzzi, de 20 anos, enrolado numa bandeira do Atlético-MG. Nem todos os 12 estavam lá: quatro andavam pela praia para trocar presentes com os jovens de outros países, prática comum durante a JMJ. "Já dei e recebi vários chaveiros, mas ainda não consegui um boné da Suíça! Esse está difícil", disse Santuzzi, que é vocacionário (um passo antes de virar missionário).

"Nos dispusemos a viver isso tudo", disse a cearense Ana Paula Batista, de 38 anos. Um dos integrantes do grupo esteve na JMJ de Madri, há dois anos. "Foi bem diferente, principalmente o transporte: lá foi muito mais tranquilo. Já para pegar os kits foi a mesma confusão", afirmou o carioca Pedro Costa, de 20 anos, missionário, referindo-se às filas de até 3 km que se formaram mais cedo para a retirada do kit vigília, no Aterro do Flamengo. Pouco depois da meia-noite, o grupo já estava debaixo dos cobertores, conversando animadamente entre si, mas alheio às cantorias de tantos outros ali perto.

Mesmo no frio (menos de 15 graus), o comerciante Carlos Augusto Paixão, de 50 anos, se "refrescava" no mar de Copacabana - só as mãos e os pés. "Sou acostumado com o mar", disse o carioca que mora em Anchieta, na zona norte do Rio. "Dá vontade de entrar com roupa e tudo!" Mas vai entrar? "Acho que não", sorriu. Outros, no entanto, se aventuraram no mar gelado - uns com roupa, outros com trajes de banho.

Paixão fazia parte de um grupo maior, que ficou com medo de a maré subir e "se mudou" para outro ponto da areia, mais afastado da água. "Já falei para eles voltarem, que está tranquilo, mas estão com medo. Eu não saio daqui", disse. Como ele, outras dezenas de peregrinos fizeram barricadas com montinhos de areia: na frente de cada um, cavaram valas, no estilo fosso de castelo medieval. Não foi necessário, a maré parou de subir.

Casais. A Avenida Atlântica e as ruas que dão acesso à praia também ficaram tomadas por peregrinos, até mesmo os postos de combustíveis da orla. Fiéis dormiam logo abaixo das bombas de gasolina e álcool, e pareciam não se importar. Incomodado, mesmo, estava quem escolheu passar a noite perto dos banheiros.

Era possível ver casais no meio dos milhares de peregrinos; alguns dormindo abraçados, sob o mesmo cobertor. Outros, lado a lado, mas cada um com sua coberta. Moradores dos prédios da Atlântica tiveram dificuldade para entrar em casa.

Dois alemães que foram à JMJ de Madri disseram estar vivendo uma experiência incrível no Rio - mas se sentiam inseguros. "As pessoas aqui são mais felizes e abertas, mas o Rio é mais perigoso", disse a estudante Rebecca Weilwli, de 20 anos. Ela faz parte de um grupo de 20 alemães que estavam hospedados na casa de voluntários no Engenho de Dentro, na zona norte do Rio.

Sem as cortinas de casa, muitos peregrinos acordaram cedo no domingo, no raiar do sol. Outros, exaustos, continuaram deitados em seus colchões e barracas até a despedida do papa Francisco.

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