Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Na Vila Pompeia, a ''Liverpool brasileira''

Desde Os Mutantes, nos anos 1960, bairro concentra dezenas de músicos e bandas

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2010 | 00h00

A despeito do que diz Caetano Veloso, alguma coisa aconteceu mesmo foi na Rua Venâncio Aires, entre as esquinas da Cotoxó e da Caraíbas. Mais precisamente na casa de número 480 moravam, na década de 1960, dois garotos que colocariam os primeiros tons de psicodelia na música brasileira: os irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista, que formariam Os Mutantes com a "vila-marianense" brevemente radicada na Pompeia Rita Lee.

Na casa ao lado, um vizinho e amigo de escola de Sérgio, o guitarrista Luiz Carlini, juntaria-se a Rita para criar a Tutti Frutti, em 1975 - Agora Só Falta Você é parceria dos dois, assim como Lá Vou Eu, uma das canções-hino da cidade de São Paulo. Também é de Carlini o lendário e elogiado solo de guitarra de Ovelha Negra, peça de resistência do repertório de Rita Lee até hoje.

Passado. Autêntico filho da Pompeia, Carlini ainda está na ativa - e morando na mesma rua até hoje. "Esse quarteirão sempre atraiu gente de fora por causa da música. Lembro que o irmão mais velho do Sérgio e do Arnaldo fabricava equipamentos artesanais no quintal. As pessoas iam até lá comprar, experimentar", conta. A oficina que Cláudio César Baptista mantinha nos fundos da casa supriu os músicos da época por um bom tempo - foi ele quem forneceu o primeiro baixo elétrico de Erasmo Carlos, e era ele quem fazia os instrumentos malucos que os Mutantes usavam em shows e gravações.

No quarteirão seguinte ao dos Baptistas, surgia outra banda também de dois irmãos, em atividade até hoje e prestes a lançar o 15.º disco: a Made in Brazil, de Celso e Oswaldo Vecchione, já mudou de formação dezenas de vezes, mas nunca parou. E nasceu justamente na Venâncio Aires, esquina com Caraíbas, na casa que ainda pertence à família. "Eu estudava no Liceu Tiradentes, ali na Alfonso Bovero com a Avenida Pompeia. Um dia, voltando a pé para casa, contei nada menos que oito bandas ensaiando em lugares diferentes", comenta Oswaldo.

Porque a Pompeia é assim, o bairro mais rock and roll do Brasil, Oswaldo até hoje não sabe responder. Mas tem algumas pistas. "No começo dos anos 1970, das quatro bandas que excursionavam pelo Brasil, três eram da Pompeia: nós, a Tutti Frutti e os Mutantes."

Os músicos do bairro, claro, tinham um "point": o bar-lanchonete Dólar Furado, na esquina das Ruas Cotoxó e Padre Chico, onde hoje funciona uma loja. "Era onde o pessoal ia beber, almoçar, fazer música. O ponto de encontro dos cabeludos", brinca Carlini.

Em 2005, alguns integrantes dessas primeiras bandas da Pompeia se juntaram para reviver os velhos tempos. O encontrou resultou em uma banda de ocasião que chamaram de "Turma da Pompeia". Lançaram até um CD e fizeram show, mas foi isso.

Presente. Os anos se passaram e, curiosamente, a fama da Pompeia não. Um pouco pela localização privilegiada (tem o charme residencial da zona oeste e é perto do centro), um pouco pelos serviços e facilidades e muito pela tranquilidade, os músicos continuam escolhendo o bairro para morar. Agora, os do rock se misturam com os de vários outros estilos.

Os pernambucanos da Mombojó trocaram Recife por São Paulo em 2008. Com cada vez mais shows agendados na cidade e mais oportunidades surgindo, a mudança foi inevitável. No começo, todos dividiam uma mesma casa na Avenida Pompeia. Agora, já se "espalharam" também para a Rua Guiará. "O bairro é perfeito para a gente, cheio de serviços, perto de tudo", conta Felipe S., vocalista da banda. Outro dia, passeando por um shopping do bairro, ele e Marcelo Machado, guitarrista, depararam-se com uma exposição sobre a história da música na Pompeia. "E tinha uma foto nossa lá!", conta Marcelo.

Na tarde da entrevista, os dois encontraram perto de casa o pianista Vitor Araújo, também do Recife. Estava procurando casa na Pompeia.

Outro que mora pelas redondezas é o guitarrista do NX Zero,Gee, mais precisamente na Ministro Ferreira Alves. "Os vizinhos não gostam muito de mim porque tenho um estúdio em casa, sabe?"

Estúdio. As bandas novas também encontram lugar para ensaiar na Pompeia. "Noventa por cento dos garotos que vêm tocar aqui são do bairro. São músicos ainda sem banda, em começo de carreira", conta Gustavo Simão, dono do Choque DB Estúdio na Augusto de Miranda.

Recentemente, Luis Campello, do Garage Estúdio Bar, precisou mudar de endereço. Saiu da Coronel Melo de Oliveira para a Rua Tucuna. "Não dá para sair do bairro porque tudo que a gente vê aqui é música. Tem sempre alguém com uma guitarra nas costas. Além do pessoal da velha guarda, tem toda uma molecada que vem ensaiar aqui."

O NOME DO BAIRRO

POMPEIA

ZONA OESTE

O nome Pompeia tem duas origens prováveis: uma é que seria homenagem a Aretusa Pompéia, mulher de Rodolpho Miranda, dono da Companhia Urbana Predial, que loteou o bairro entre 1910 e 1920. Outra é que Claudio e Luiza Leite de Souza, donos de um terreno na atual Avenida Pompeia, fizeram uma promessa no Santuário de Pompeia, na Itália: caso uma filha doente se curasse, construiriam uma capelinha com a imagem de Nossa Senhora do Rosário. A graça foi alcançada e o bairro cresceu em volta da igreja homônima.

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