Marcos Arcoverde/AE
Marcos Arcoverde/AE

Na Vila Cruzeiro, motos, drogas e lixo

Policiais acharam 300 motocicletas abandonadas, um pronto-socorro do tráfico e um laboratório; limpeza das ruas só começou à tarde

Marcelo Auler / RIO, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

No dia seguinte à ocupação da Vila Cruzeiro pela forças policiais, o que mais impressionava ontem não era o lixo não recolhido por dois dias, tampouco as carcaças de três caminhões queimados ou mesmo as barricadas montadas por criminosos para impedir a entrada da polícia. Era a enorme quantidade de motocicletas abandonadas por todas as ruas da favela, muitas delas queimadas, outras muito amassadas. Segundo a polícia, somavam mais de 300, que teriam sido roubadas e estavam com os traficantes que fugiram da favela.

A polícia fez ontem uma varredura na área. Em uma região conhecida como Caixa D"Água, homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope) descobriram em uma casa um quarto de enfermaria, preparado para prestar primeiros-socorros aos traficantes. Em outro ponto da Vila Cruzeiro, um matagal chamado de Vacaria, foi encontrado o corpo de um jovem de cerca de 21 anos. Um morador afirmou que ele era traficante.

Também foi localizado um laboratório de refino e embalagem de drogas que, segundo a polícia, pertencia aos traficantes Lúcio Mauro Carneiro dos Passos, o Biscoito, e Robertinho do Cajueiro, responsáveis pelo tráfico nos Morros Camarista Meier, no Meier, e Cajueiro, em Madureira. No local também havia um escritório para a contabilidade, além de material químico para preparo das drogas. A polícia apreendeu 100 quilos de drogas, entre cocaína e maconha, uma prensa e uma máquina de contar dinheiro. Havia ainda uma garagem com carros importados roubados: três caminhonetes Hilux, um Toyota Corolla e um Hyundai, este com placa de Itajaí (SC).

Moradores. Com livre acesso após a fuga dos traficantes, jornalistas também circularam pelas ruas da Vila Cruzeiro. Passado o tiroteio, a principal preocupação dos moradores ontem era a falta de luz, provocada pelo derretimento dos fios, consequência do incêndio de caminhões na quinta-feira. Eles reclamavam da comida estragando nas geladeiras, da ausência da televisão e da falta de ventiladores.

Uma mulher que preferiu não se identificar lamentou a possível perda de centenas de salgadinhos que estocara no freezer preparando a festa de 15 anos da neta, em fevereiro. Já o dono de uma loja de material de construção reclamava que a falta de luz impedia as vendas com cartões de débito e crédito, mas mantinha o otimismo. "Pensei que seria pior, mas acabou sendo fácil. Graças a Deus, está tranquilo e vai ficar melhor."

Mas houve também quem tivesse outros motivos para protestar. Caso do comerciante conhecido no alto da Vila Cruzeiro como Boi, que há 40 anos mantém um bar, arrombado na quinta-feira. Bebidas e frios foram levados e o relógio de luz foi queimado pelo fogo que consumiu duas motos na frente da loja.

À tarde, caminhões da prefeitura recolhiam as motos e as carcaças de carros. A Comlurb, empresa municipal responsável pela limpeza no Rio, começou a retirar o lixo, e o Bope derrubou barricadas. Só a luz não voltou.

REAÇÕES

Andrucha Waddington

Cineasta

"Na boa, se legalizar e transformar droga em problema de saúde pública, o Brasil dá um passo e para de confundir alhos com bugalhos."

Carlinhos de Jesus

Dançarino

"Como na cena do filme Tropa de Elite (Capitão Nascimento aplaudido no

restaurante), nós, cariocas, aplaudiremos nossa polícia no fim de tudo!"

Guti Fraga

Ator

"O Rio está nesse clima, mas a vida não para. Eu não acredito no paternalismo. As ações socioculturais dentro das comunidades poderiam acontecer há muito tempo... ações que criem oportunidades iguais para todos."

Paulo Coelho

Escritor

"Minha amada cidade, o que acontece? Não vou tuitar em inglês para não chamar a atenção."

Fernando Gabeira

Deputado

"O clima está mais tranquilo. Mas as milícias sairão fortalecidas."

REPERCUSSÃO

EL PAÍS

A violência no Rio apareceu na primeira página das edições global e nacional

do site do jornal espanhol El País, que destacou o uso "das três forças armadas contra os traficantes"

BBC

Na página da rede britânica BBC, a notícia era manchete na seção sobre a América Latina

CLARÍN

O jornal argentino El Clarín destacou "a onda de violência" no Rio no alto da seção internacional de seu site

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