Na sua 70ª edição, qualidade da mostra de Veneza é 'mediana'

Público esperava alguma coisa a mais do evento, que é o mais antigo festival de cinema do mundo, fundado em 1932

LUIZ ZANIN ORICCHIO, ENVIADO ESPECIAL / VENEZA, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h14

Em termos de qualidade, a mostra principal do 70.º Festival de Veneza pode ser classificada como apenas mediana. Houve filmes interessantes, e alguns deles até muito bons. Mas a verdade é que se esperava alguma coisa a mais da edição de número 70 deste que é o mais antigo festival de cinema do mundo, tendo sido fundado em 1932, em plena era de Benito Mussolini.

Numa mostra em que filmes experimentais conviveram com outros muito violentos, o preferido entre críticos e público, até a última sessão, foi o bonito Philomena, do consagrado diretor inglês Stephen Frears. Bastante tradicional do ponto de vista da linguagem cinematográfica, Philomena conta a história de uma mãe solteira, cujo filho fora dado em adoção, e que tenta reencontrá-lo 50 anos depois com ajuda de um repórter.

No extremo oposto, tivemos um filme ousado como Stray Dogs (Cães Vira-latas), do taiwanês Tsai Ming Liang, que, com um estilo de cenas lentas, quase paradas, fala da vida dos deserdados na crise econômica de Taipé. Ou o grego Miss Violence, de Alexandros Avranas, sobre a violência doméstica de um patriarca que faz da própria casa um bordel.

Crises e violência não faltaram, como se vê, e estiveram presentes também em títulos como Les Terrasses, do argelino Merzak Allouache, uma visão tétrica da situação das pessoas em Argel. Ou em A Mulher do Policial, de Philip Gröning, sobre a violência consentida cometida sobre a mulher. São filmes que expressam, de maneiras e ângulos diferentes, uma sensação de mal-estar e desordem que se espalha pelo mundo.

Mas houve quem tentasse visão mais amena, como a do italiano Gianni Amelio com seu O Intrépido, fábula urbana sobre o homem que tem todos os empregos e nenhum. Numa bela atuação de Antonio Albanese, o que se vê é um trabalhador que sobrevive substituindo outros em seus empregos. Mas não tira o sorriso do rosto e mantém o coração limpo. Uma fábula bonita e chapliniana, que acabou mal recebida por aqui, em especial entre os italianos.

Mais gente tentou uma visão mais esperançosa da vida, como fez o israelense Amos Gitai com o belo Ana Arabia, filmado num único plano sequência sem cortes, mostrando uma possibilidade de convivência entre árabes e israelenses.

Scarlett. Diretores como Gitai e Amelio eram evidentemente minoria entre seus colegas. Predominou mesmo a visão dark, mesmo entre filmes menos bem recebidos como The Zero Theorem, do ex-Monty Python Terry Gilliam, sobre a alienação causada pela tecnologia contemporânea. Ou o péssimo Under The Skin, fábula terminal tendo por personagem uma alienígena devoradora de homens interpretada por ninguém menos que Scarlett Johansson. Muito ruim, o filme pelo menos trouxe a deslumbrante Scarlett ao Lido. Seu desfile pelo red carpet num "tomara que caia" negro da grife Versace é uma das imagens inesquecíveis da Mostra. Ou, pelo menos, do seu lado, digamos assim, mundano.

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