Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Na SP rural, 0,9% dos paulistanos vive longe de trânsito, estresse e poluição

Alguns reclamam de estradas malcuidadas e falhas de celular, mas nem eles pensam em deixar a tranquilidade da vida no campo

William Cardoso, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

A capital paulista esconde nas suas bordas moradores que fogem do ar poluído, dos congestionamentos e do estresse, típicos da região central da cidade. Segundo o Censo 2010, divulgado neste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 101.159 pessoas (0,9% da população total) vivem em áreas rurais, fora do perímetro urbano - um território que representa pouco menos da metade da área do Município.

Dos paulistanos que moram na área rural, 46.477 estão em distritos da zona sul da cidade. Distante mais de 50 quilômetros da região central e já na divisa com a litorânea Itanhaém, é o distrito de Marsilac que tem a maior proporção de moradores fora da zona urbana (83,17%).

Árvores, riachos, pastagens e plantações fazem parte do dia a dia desses paulistanos que trocam o asfalto pelo campo. Eles contam que a vida rural em meio à metrópole é um privilégio do qual não abrem mão. "Aqui não tem aquela montoeira de gente, como na cidade. Meus netos brincam na terra, se sujam e não ficam doentes", diz a doméstica Maria Aparecida Cordeiro Antonio, de 50 anos, pouco mais de 20 deles em Marsilac.

Maria Aparecida nasceu em São João do Ivaí (PR). Lá, trabalhava como agricultora com o marido. O casal seguiu para São Paulo nos anos 1980 em busca de oportunidades, mas não se acostumou à vida turbulenta. "A gente não se deu bem. Aí passamos a viver como caseiros em sítios aqui de Marsilac. Depois de um tempo, conseguimos comprar esse terreno, onde criamos nossos filhos e netos."

Em casa, a doméstica cria um tucano de estimação, entre outros bichos, e vê vizinhos que usam animais como meio de transporte. É o caso do agricultor Florisvaldo Cardoso, de 61 anos, que vive montado na mula Estrelinha, de 20, seu xodó. "Quando deixo na cocheira, ela fica bem bonita. Gasto dois sacos de ração e três de farelo por mês. Mas ela também come cana, banana, maçã e pão velho."

Cachoeira. Mais ao sul, ainda em Marsilac, o paulistano "da cidade" se espanta quando cruza com vacas e bezerros no atoleiro. No fim do caminho, encontra uma cachoeira de água límpida. Luciano Ré, de 72 anos, escolheu ali como cenário para viver depois da aposentadoria. "Tenho casa na Avenida João Dias (em Santo Amaro), mas fico lá só uns dois dias por mês. Gosto do sossego." Ele reclama só da estrada malcuidada e das falhas do celular. A lanchonete de Luciano, ao lado da cachoeira, está em reforma. Os trabalhadores que consertam o telhado aproveitam a pausa à tarde para tomar goladas de cachaça Janaína e pitar um cigarrinho de palha. Todos vivem nas redondezas. "O problema é quando falta a pinga e o fumo. Aí a gente tem de buscar na cidade", diz, sorrindo, José Felix dos Reis, de 57 anos.

Em outra ponta da zona sul, na Ilha do Bororé, os moradores cruzam a Represa Billings em uma balsa para chegar à cidade. Alberto Florentino, de 52 anos, comprou uma chácara ali há oito, mas foi há um ano e meio que se mudou de vez. "O Bororé é tudo para mim. Aliás, nem vou fazer muita propaganda, senão logo, logo vai estar cheio de gente por aqui e acaba o sossego."

Também morador do Bororé (que na verdade é uma península, não uma ilha, porque está ligada ao restante da cidade por uma faixa de terra), o edificador Diego Angelo, de 22 anos, trabalha na região de Socorro. "Falam que eu moro no meio do mato, mas nem esquento. Só sei que quando chego em casa posso relaxar e curtir a natureza."

Tremembé. Não é só a zona sul que abriga moradores da área rural de São Paulo. No outro extremo da cidade, na zona norte, é possível encontrar sítios e chácaras, embora já cercados por ocupações irregulares.

Os 75 anos de idade não impedem Hideko Yogui de repetir os gestos que faz há quase meio século, desde que seu pai comprou a área de um alqueire no Tremembé para plantar chuchu. Ela segura o cabo da enxada, lavra a terra e diz que o trabalho faz bem. "Muita gente vai para a academia fazer exercício. Aqui eu trabalho e ainda ganho um dinheirinho. Quero continuar até os 80 anos. Depois, eu descanso um pouquinho."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.