Alex Silva/Estadão
A corretora de seguros Vanessa Bassane começou a usar cada vez mais bicicleta e menos o carro até que decidiu vender seu automóvel Alex Silva/Estadão

Na Semana da Mobilidade, veja histórias de quem abandonou o carro

'Estado' ouviu pessoas que adotaram alternativas como transporte público, bicicleta e até patinete

Léo Martins e Sandy Oliveira, especiais para o Estado

20 de setembro de 2019 | 11h00

SÃO PAULO - Por que você anda de carro? O que você melhoraria na estrutura voltada para bicicletas na cidade de São Paulo? E quanto ao transporte público, ônibus ou metrô, qual a sua avaliação do serviço prestado? As respostas a essas perguntas podem ajudar na reflexão proposta pela Semana da Mobilidade, mobilização da Prefeitura com uma programação voltada à segurança e à convivência saudável entre os diversos modais de transporte.

No próximo domingo, 22, várias cidades se mobilizarão para o Dia Mundial sem Carro, data que serve também como um estímulo para se reavaliar o uso do veículo na rotina de grandes cidades. 

O Estado ouviu pessoas com histórias similares que envolvem menos uso do carro e a adoção de alternativas como metrô, bicicleta e até patinete. Para eles, o resultado foi uma melhoria na rotina, ainda que não sem sobressaltos: a hora do rush no metrô é um incômodo e a cidade continua devendo mais ciclovias e segurança para os ciclistas. 

Leia abaixo as histórias:

 

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Para fugir do trânsito da Paulista, a opção foi troca do carro pelo metrô

Morador da zona norte, Ronaldo Ribeiro desistiu de seu veículo ao demorar mais de 2 horas para voltar para casa

Léo Martins e Sandy Oliveira, especiais para o Estado

20 de setembro de 2019 | 11h30

SÃO PAULO - Carros, motos, estresse, buzinas. O caos do trânsito paulistano era parte certa da rotina de Ronaldo Ribeiro, de 51 anos, que ficava sentado dentro do carro por duas horas (ou mais) para sair do trabalho na Avenida Paulista, na região central de São Paulo, e voltar até sua casa no bairro do Mandaqui, na zona norte. Cerca de 11 quilômetros separam os dois locais. Sem trânsito, o trajeto é realizado em, no máximo, 30 minutos.

“Até junho de 2018, eu trabalhava a oito quilômetros de casa. Era muito mais fácil ir de carro, eu tinha uma vaga na garagem do prédio. Mas, quando comecei a trabalhar na Avenida Paulista, eu fiquei só um mês (de carro). Foi um mês de tortura. Muito trânsito, muito trânsito”, conta o analista de sistemas. “Para ir para o trabalho, eu saía cedo e chegava em 40 minutos. Mas para ir embora eram duas horas, às vezes mais.”

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Para ir para o trabalho, eu saía cedo e chegava em 40 minutos. Mas para ir embora eram duas horas, às vezes mais
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Ronaldo Ribeiro, analista de sistemas

Exausto, Ribeiro procurou e encontrou um meio mais rápido, mais barato e menos estressante: ônibus e metrô.

“Eu saio de casa por volta de 7h10. Pego um ônibus até o metrô Santana (na zona norte) e vou até (a estação) Trianon-Masp. Saio da estação na porta do trabalho. Na volta, mesma coisa, e levo 40 minutos.” 

O que incomodou Ribeiro, no entanto, é ter trocado o conforto do carro pelo aperto no transporte público lotado pela manhã.

“É muita gente. Não tem jeito. Tem dia que deixo passar um ou dois trens para não ficar igual uma lata de sardinha. A priori, não acabei ganhando, porque perdi a comodidade, o conforto. Mas já estou há um ano de condução, eu não me vejo vindo de carro mais”, relata.

 

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Estresse diário e custo motivaram venda do carro e adoção da bike

Gabriela Vuolo chegava a gastar R$ 1.300 por mês com seu automóvel; depois de reformular sua rotina, ela agora economiza

Léo Martins e Sandy Oliveira, especiais para o Estado

20 de setembro de 2019 | 12h00

SÃO PAULO - O trânsito em São Paulo também foi o responsável por fazer Gabriela Vuolo, de 37 anos, que dirige desde os 18, deixar o carro na garagem e usar a bicicleta

“Eu levava 40 minutos para levar meu filho para a escola, que fica a cinco quilômetros de casa, no Alto de Pinheiros (na zona oeste). Passava mais tempo com ele no carro do que em casa brincando. Isso que me deu o primeiro estalo”, conta a bacharel em Relações Internacionais. 

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Eu levava 40 minutos para levar meu filho para a escola, que fica a cinco quilômetros de casa
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Gabriela Vuolo, bacharel em Relações Internacionais

Gasolina, seguro, estacionamento, manutenção. Fora o estresse diário, conta Gabriela, o custo mensal do carro chegava a R$ 1.300. Ao colocar na ponta do lápis e contabilizar o prejuízo, ela reformulou sua vida e sua rotina. 

“Mudei meu filho para uma escola em que eu levasse ele a pé ou de patinete, a um quilômetro de casa. Ele começou a ir para escola de patinete na hora do almoço e, depois, eu o pegava de bicicleta e voltávamos juntos”, afirma. “Claro que moramos em Alto de Pinheiros, bairro com calçada boa. Estamos falando de uma bolha. Isso não é viável para a maior parte das pessoas de São Paulo.”

A dificuldade de adaptação ao novo transporte, conta Gabriela, foi ter que reestruturar algumas tarefas semanais, como ir ao mercado.

“Tive que reformular o jeito de pensar nas compras. Não podia fazer muitas compras de uma vez porque não tinha como levar para casa”, afirma. 

O carro? Gabriela arrumou um comprador e conseguiu vendê-lo. No dia de entregar o automóvel, deixou a chave e outra lembrança inusitada.

“Deixei uma carta no porta-luvas do carro para que ele se conscientizasse. Nela, expliquei por que da minha opção de vender o carro e disse que cada pessoa numa bicicleta na rua era um carro a menos no trânsito.” 

 

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40 quilômetros de bike e banho improvisado: é possível viver sem carro

Vanessa Bressane pedala todos os dias do Tatuapé ao Brooklin e se vira para não enfrentar o incômodo em chegar suada ao trabalho

Léo Martins e Sandy Oliveira, especiais para o Estado

20 de setembro de 2019 | 12h30

SÃO PAULO - Vanessa Bressane, de 39 anos, trocou o carro em São Paulo pela bike há seis anos. “Comecei fazendo pedal noturno, para poder conhecer a cidade, depois passei a fazer passeio no final de semana. A única coisa que eu não fazia, era ir para o trabalho de bicicleta.” 

A corretora de seguros mora no bairro do Tatuapé, na zona leste, e pedala até o Brooklin, na zona sul, onde trabalha. Ao todo, percorre 40 quilômetros diariamente.

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Eu levava uma hora e quarenta de carro, agora eu levo uma hora e dez de bicicleta”
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Vanessa Bassane, corretora de seguros

“Eu tentei, eu vi que deu certo. Foram passando os dias, eu comecei a usar cada vez mais bicicleta. E usar cada vez menos o carro. Então eu resolvi vender o carro e guardar um dinheiro”, conta. 

A decisão de trocar de vez o carro pela bicicleta teve um empurrãozinho da necessidade de estar em dia com a saúde e, ao mesmo tempo, praticar esporte.

“Se você for colocar na ponta do lápis, não é vantajoso você ter um carro hoje em dia. Eu levava (até o trabalho) uma hora e quarenta (minutos) de carro, agora eu levo uma hora e dez de bicicleta.” 

Um dos maiores empecilhos que Vanessa encontrou na decisão foi o incômodo em chegar suada ao trabalho. Contra isso, deu um jeito diferente.

“Eu adaptei um chuveirinho, desses de acampamento, e quando chegava no trabalho já ia para o box do banheiro e me limpava, da forma que dava.”

Hoje em dia, a estratégia é diferente: ela paga uma academia, próximo ao trabalho, para poder tomar banho.

“Só pago academia para isso. Às vezes, passo lá, faço alguma coisa”, conta.

Apesar do lado positivo que a atividade diária proporciona, Vanessa ainda se arrisca em ruas da cidade que ainda não têm ciclovia.

“A maior parte que eu pego, na ciclovia da zona leste, ela não tem manutenção. A maior parte que eu faço do trajeto é sem ciclovia. Eu comecei a andar de bicicleta por causa da ciclovia, só me sentia segura quando eu ia por ela. Hoje eu consigo me adaptar tanto na ciclovia, quanto na rua.”

 

 

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Com bike na rotina há 10 anos, pedido é por mais ciclovias em SP

Aline Cavalcante também alerta para os perigos enfrentados pelos ciclistas na cidade, especialmente as mulheres

Léo Martins e Sandy Oliveira, especiais para o Estado

20 de setembro de 2019 | 13h00

SÃO PAULO - Aos 33 anos, Aline Cavalcante incluiu de vez o uso da bicicleta em sua rotina há 10 anos. A vantagem de morar relativamente perto do trabalho a levou a mudar sua forma de se locomover e transformar em hábito as pedaladas diárias em São Paulo.

“Eu queria juntar dinheiro, economizar. Eu não tinha noção de quanto o carro tem impacto negativo na nossa vida. Não só na economia, mas na cidade. A poluição do ar, violência no trânsito.”

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Precisamos continuar pressionando para que os governos continuem avançando com essa agenda, continuem construindo ciclovia
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Aline Cavalcante, gestora de projetos

Além da bike, a gestora de projetos usa o transporte público com frequência, mas como segunda opção.

Os trajetos do dia a dia nem sempre são uma boa opção para a ciclista que escolhe outros atalhos, por falta de segurança.

“Já deixei várias vezes de fazer alguns caminhos por medo de ser assaltada, por medo de violência contra o meu corpo, e a bicicleta - ela é bem mais vulnerável no trânsito. E o fato de ser mulher, numa cidade que não respeita os veículos mais frágeis como pedestre e ciclista,  acaba acumulando essas fragilidades.”

Hoje, Aline é mãe, o que para ela torna esse desafio diário um pouco mais desafiador.

“Acho que tem muita coisa que tem que ser feita. Para que de fato o ato de andar de bicicleta, andar a pé, seja cada vez mais acolhido na cidade, seja cada vez mais bem-vindo, precisamos continuar pressionando para que os governos continuem avançando com essa agenda, continuem construindo ciclovia.” 

 

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