Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Na São Paulo cinza, tapume de canteiro de obras vira arte

Para ‘ganhar a vizinhança’, construtoras inovam na proteção de seus canteiros

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2014 | 22h00

No processo de colorização da cidade conhecida pelo cinza, até os tapumes das obras têm participado. Por marketing (mas com o discurso pronto de “queremos ganhar a simpatia da vizinhança”), construtoras e incorporadoras cada vez mais transformam os tapumes de seus canteiros em galerias de arte em São Paulo. São as obras da construção civil contornadas pelas obras de artistas plásticos e designers. 

A construtora e incorporadora Kallas vem investindo nos tapumes. “A ideia de transformar esses espaços em trabalhos de arte é não se isolar dentro do espaço, mas interagir com a cidade, falar com os passantes”, diz a gerente institucional da empresa, Tatiana Kallas. Três já foram executados na zona oeste da capital - um na esquina entre as Avenidas Mofarrej com a Gastão Vidigal, na Vila Leopoldina, um na Rua Cristiano Viana e outro na João Moura, ambos em Pinheiros.

Dois deles foram criados pelo arquiteto e artista plástico Gustavo Godoy, do grupo Bijari. Ele desenvolveu um tapume tridimensional, com curvas e cortes que proporcionam uma imagem diferente, de acordo com o ponto em que a pessoa está. “Pensamos em fazer nesse formato para despertar o olhar anestesiado das pessoas, mostrar que outra cidade é possível”, explica.

Responsável pela concepção do tapume da Rua Cristiano Viana, o artista plástico Rodrigo Machado centralizou um trabalho realizado com catadores de lixo. “No projeto, mobilizamos os carroceiros da região para que eles conseguissem matéria-prima. Foram duas semanas coletando esse material”, conta. 

Nesse período, os profissionais traziam portas velhas e madeiras diversas, sempre em estado razoável. A equipe comprava o material que interessava. E o tapume foi construído assim, com reaproveitamento de lixo, mas tudo montado de uma maneira organizada, artística. “Nossa preocupação foi mostrar que era possível reutilizar material velho e ajudar os catadores da região. E juntei meu design com essa história toda”, diz Machado, que levou outras duas semanas para aprontar o tapume instalado ali há pouco mais de dois meses.

Grafite. A incorporadora Brookfield optou pelos grafites. Desde 2010, a empresa faz o que chama de projeto Urban Gallery. “Nossa proposta foi mudar um pouco o visual dos canteiros de obras, dando o espaço para artistas”, explica o diretor de incorporação José de Albuquerque. “Com isso, conseguimos proteger os tapumes de pichações, já que em geral os pichadores respeitam os grafiteiros. E também levar um pouco do ar cultural para o entorno.”

De lá para cá, já foram 32 empreendimentos com tapumes grafitados em todo o País, 18 no Estado, 15 dos quais na capital paulista. “Obra sempre causa uma impressão ruim na vizinhança, por causa dos caminhões saindo, da rua suja de terra, do barulho, todo esse transtorno. Com o projeto, procuramos passar uma mensagem positiva ao entorno”, diz Albuquerque. Em São Paulo, atualmente, podem ser conferidos um tapume na Avenida Eusébio Matoso, em Pinheiros, e outro na Rua Fortunato Ferraz, na Lapa. Ambos foram pintados por Roberto Bieto.

A construtora e incorporadora Even optou por um viés ecológico. Desde 2011, a empresa coloca displays de coleta seletiva nos tapumes de suas obras, incentivando a vizinhança a descartar o lixo ali. Mais de 50 obras já receberam o projeto. Hoje, há 20 em São Paulo, duas no Rio Grande do Sul e duas no Rio.

“O principal objetivo é promover o engajamento da comunidade”, explica o diretor executivo técnico e de sustentabilidade da Even, Silvio Gava. O projeto já arrecadou mais de 70 toneladas de material reciclável.

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