Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Na rota dos mochileiros

Em 5 anos, número de hospedarias para jovens viajantes quadruplicou na cidade. Há de opções para baladeiros a interessados na história de SP

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2011 | 00h00

Há cinco anos, os mochileiros que chegavam a São Paulo penavam para encontrar hospedagem. As opções eram poucas: havia apenas cinco hostels (acomodações de baixo custo). Ficavam no centro, em Pinheiros, nos Jardins e na Praça da Árvore. E era só.    

Mas esse tipo de hospedagem - a preferida de quem viaja com dinheiro contado - cresceu: hoje já são 23 hostels na capital. Só neste ano cinco foram inaugurados. A Expedição Metrópole percorreu novos destinos de mochileiros na cidade - e verificou inédita especialização: há opções para quem busca tranquilidade, para baladeiros e até para quem quer mergulhar fundo na história da cidade.

A jornada de um mochileiro começa acelerada: os minutos são contados, é preciso descobrir logo como chegar ao destino escolhido. No hostel Gol Backpackers, nos Jardins, não deu tempo nem para o café da manhã para as estudantes colombianas Ana Maria e Carolina Giraldo, de 23 anos, que ficaram três dias em São Paulo.

Depois de passar um dia no parque - "como é mesmo o nome? Iguarucuru?" -, elas terminariam a estada paulistana com visitas ao Museu da Língua Portuguesa e ao Mosteiro de São Bento, no centro. Tinham cinco horas até partirem para o Rio. A mesa estava posta, mas elas saíram de barriga vazia: cada uma pegou um litro de suco de maçã de caixinha e correu porta afora, com mochila nas costas e mapa na mão.

"É muito lugar para ver, temos de fechar o que planejamos", disse Carolina, antes de entrar no táxi. Em três dias, as mochileiras visitaram 11 pontos históricos da cidade, da Pinacoteca ao Edifício Itália. "É um mar de edifícios fantástico, nunca havia visto igual. A cidade não acaba mais! Outro passeio que gostei foi caminhar pela Avenida Paulista à tardinha."

Inaugurado em outubro, o Gol - em que cada quarto leva o nome de um time de futebol (o maior é o Corinthians) - já está sendo ampliado. São 26 leitos, os donos vão aumentar para 34. "Esse boom de hostels é resposta à demanda que vai aumentar ainda mais por causa de grandes eventos, como a Copa", avaliou um dos proprietários, o geólogo Ralf Nicoliche. "Na alta temporada, ficamos com 70% a 100% de lotação."

Como bons mochileiros, os escoceses David e Rachel Gallagher, de 28 anos, acordaram cedo no Sampa Hostel, o primeiro criado na Vila Madalena, zona oeste. Era seu último dia em São Paulo e, com todos os destinos clássicos já percorridos - de Mercado Municipal a Edifício Altino Arantes -, o passeio do casal seria "100% cultural". O local escolhido foi o Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera.

"O guia o apontava como local "indispensável" para entender a história do País", disse Rachel, professora em Edimburgo. O casal encheu de perguntas o monitor do museu - sobre escravidão, racismo e influência africana na formação nacional. "Não imaginava que o Brasil devesse tanto a essa mistura. Nem que a arte afro fosse tão variada."

Após passar a manhã no museu, eles seguiram para o Planetário. À tarde, voltaram para o hostel, pegaram a mala e foram para Foz do Iguaçu (PR). "Adoramos a cidade. Não nos sentimos inseguros como dizia o Lonely Planet (guia), achei as pessoas na rua amistosas", disse David. "Nos perdemos no centro e recebemos ajuda de todos."

Uma das donas do Sampa Hostel, a publicitária Deborah Cavalieri é também articuladora de uma nova organização na cidade: a Associação de Hostels de São Paulo, única do gênero, criada nesta semana com apoio da Prefeitura. "Associados terão de seguir um padrão de qualidade para serem reconhecidos. Já temos ao menos 20 interessados."

Ovos de codorna. Arroz, feijão, salada, purê de batata, carne - e "umas bolinhas brancas que não conhecia". O estudante português Cláudio Manuel Rocha, de 21 anos, nunca havia visto ovos de codorna. "Comi tapioca, acarajé... Me surpreendi com tanta comida", disse, após almoçar no hostel Pauliceia.

Na hospedaria, inaugurada em 20 de junho em um casarão restaurado na Bela Vista, cada quarto homenageia um bairro: o Liberdade segue tema oriental, com luminárias japonesas e fotos de ruas do bairro; o Ibirapuera tem cômodas com cartões postais de atrações do parque; no Anhangabaú, as paredes são pintadas com imagens do vale; o Bexiga fica ao lado do solar com vista para o bairro e tem armário com imagens da Igreja de Nossa Senhora da Achiropita e do Castelinho da Rua Apa. "É informação que enriquece a viagem", disse a dona, Beatriz Rocha. "A proposta é integrar o viajante à cidade já a partir do quarto."

Para mochileiros em férias, toda noite é noite de sábado. E a disposição para baladas diárias teve reflexo na composição das hospedarias. O Casa Club Hostel Bar foi inaugurado em 2008 "apenas" como bar. Meses depois, o casarão na Rua Mourato Coelho, na Vila Madalena, ganhou quartos e virou hostel. Decorado com luzes negras e balcão com seis tipos de cachaça, o bar é a primeira impressão do visitante.

A localização rodeada de bares é outro chamariz. "Estava bem avaliado no Hostels of the World (que classifica os espaços) e vi que ficava no meio da Vila. Para quem procura festas, é maravilhoso", disse o comerciante francês Jeremie Zanna, de 27 anos.

 

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