Na Radial, o trilho é campeão

Vagões ganharam com folga do automóvel, que também ficou bem atrás da bicicleta

O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2012 | 03h03

O Estado resolveu fazer seu próprio "desafio intermodal" na região mais populosa da cidade de São Paulo, a zona leste. Foram testados o metrô, a bicicleta e o carro - que, preso nos engarrafamentos, perdeu de lavada (veja quadro ao lado). Mas a reportagem não se limitou a testar o tempo: analisou também o sufoco de cada meio de transporte.

O ponto de partida do desafio foi a Estação Corinthians-Itaquera, última parada da Linha 3-Vermelha do Metrô. O destino foi a Estação Sé, no centro. A distância entre os dois pontos é de 19 quilômetros. O desafio aconteceu na última quinta-feira e começou às 7h48.

Quem mora em Itaquera e escolhe o metrô tem de passar por 12 estações até chegar à Sé. Mas também tem a possibilidade de fazer a viagem toda sentado, o que faz toda a diferença. Alguns leem seus livros, outros se divertem com jogos no telefone celular e a maioria dorme.

Enquanto isso, os que estão de pé têm poucos minutos de conforto. Conforme o trem vai seguindo, vai ficando cada vez mais difícil esticar o braço, pegar algo no bolso ou mexer no telefone celular. Chega uma hora em que segurar nas barras de apoio torna-se totalmente desnecessário, já que a lotação é tanta que os corpos ao redor não deixam o passageiro nem se mexer, ainda mais cair. Os que entram nas estações mais perto da Sé têm de abrir o caminho à força. Alguns entram de costas, colocam a mão no teto e empurram o corpo para trás, antes que a porta feche rente ao rosto.

No Brás e no Tatuapé, estações em que há integração com os trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), a massa de novos usuários faz com que passageiros que estão perto de uma porta sejam empurrados até atravessar o vagão e acabar perto da outra. As constantes paradas "para aguardar a movimentação do trem à frente", mesmo que curtas, irritam a todos.

Quando se chega à Sé, o alívio é grande para quem sai. Os demais continuam apertados até a Estação República, onde há a ligação com a Linha 4-Amarela.

Durante a viagem de metrô, mesmo no aperto, muitos agradecem por não ter de enfrentar o intenso congestionamento da Radial Leste.

Duas rodas. Mas lá na Radial também há um jeito de escapar do congestionamento, embora exija esforço: a bicicleta. E, embora tenha falhas, como ondulações no piso de concreto, a ciclovia é uma opção rápida e segura para quem quer ir de Itaquera em direção ao centro. No entanto, isso só vale até o Tatuapé. Ali, a rota exclusiva de bicicletas termina do nada, sem aviso - e pior, direto em um ponto de ônibus. O ciclista tem de tomar muito cuidado para não se deixar levar pelo embalo da pista e atropelar quem espera ônibus.

A partir daí, o ciclista é obrigado a pedalar entre os carros e ônibus da Radial Leste e da Avenida Alcântara Machado por mais 7 quilômetros até a Sé.

O tempo gasto pela bicicleta também poderia ser menor se um trecho anterior, de 400 metros da ciclovia, a partir da Estação Penha, não estivesse interditado e em obras. O ciclista é obrigado a subir uma escada com a bike e atravessar a pé a estação, até o outro lado da Radial e então continuar pela rota.

Parando. Mas se o carro tem alguma preferência na estrutura viária da Radial, isso não ajuda muito no caminho durante o horário de pico. A viagem foi uma sequência de anda e para que consumiu quase 40 minutos do percurso, mas começou com a certeza de que o único concorrente sério na disputa seria o metrô, uma vez que pedalar 19 km exige um preparo físico que a maioria dos jornalistas simplesmente não tem.

Mas o congestionamento ficou angustiante ainda nos primeiros 10 minutos da viagem, no trecho em que a Radial se chama Avenida Doutor Luís Aires e tem só duas faixas. Os semáforos abriam e fechavam antes que fosse possível percorrer 10 metros. A maior parte dos motoristas dos carros vizinhos deixava transparecer o tédio, enquanto era possível ver mulheres aproveitando a lentidão para passar batom e lixar as unhas. E, a exemplo do que acontece no metrô, muitos procuravam entretenimento no celular, apesar da proibição.

A situação só melhorou depois do Viaduto Engenheiro Alberto Badra, quando começa a faixa reversível da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Mas nem isso ajudou. Antes de chegar ao Tatuapé, o repórter soube, por telefone, que havia perdido a disputa para os dois colegas (veja os resultados acima). / A.R., B.R. e W.C.

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