Na mala e na mochila

Na última semana, notícias de apreensões gigantescas de drogas no Brasil e na França mostram que o tráfico não dá trégua, tem tentado burlar sistematicamente os mecanismos de controle das autoridades e consegue fazer as drogas ilícitas chegarem ao seu consumidor final. Em boa parte das operações, jovens tinham sido tanto o destino final da entrega, como também os envolvidos no transporte.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2013 | 02h07

Em Florianópolis, uma ação da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic) conseguiu interceptar na última quarta-feira nada menos do que 100 mil comprimidos de ecstasy (droga utilizada pelos jovens em festas e baladas por aumentar a sensibilidade e dar mais energia) e 3 mil pontos de LSD (ácido lisérgico, um alterador da percepção). Santa Catarina é cada vez mais um destino para grandes festivais de música eletrônica e raves, onde há um forte "mercado" para consumo de drogas sintéticas. Foi a maior apreensão com base em investigação já realizada no Estado. A rota Florianópolis-Europa para essas drogas não é nova. Jovens contratados no esquema, às vezes ganhando mais de R$ 20 mil por viagem, levam cocaína para a Europa e trazem, de volta, em sua bagagem, os comprimidos de drogas sintéticas.

Não é um episódio isolado. Há duas semanas, por exemplo, um casal de estudantes da USP de São Carlos, ambos de 26 anos, foi preso com mais de 500 comprimidos de ecstasy e 45 pontos de LSD. Os jovens são de classe média alta, do interior do Estado, e venderiam a droga em festas na região.

Em Paris, a revelação de uma apreensão recorde de cocaína nesta semana também chamou a atenção. Em um voo da Air France, proveniente da Venezuela, foram encontradas malas contendo 1,3 tonelada de cocaína, com valor estimado em quase R$ 150 milhões.

Foi a maior apreensão da droga já realizada na França. As autoridades se perguntam como tamanha quantidade de cocaína foi embarcada em um navio comercial sem que os devidos mecanismos de controle tenham funcionado adequadamente.

No Brasil, seduzidos pela fábula do dinheiro fácil, que pode sustentar diversos hábitos de consumo e até custear estudos universitários, alguns jovens de classe média têm se dedicado à venda ilegal das drogas sintéticas. Em baladas caras, um "doce" ou uma "bala", que pode custar até R$ 50, não pesa tanto no bolso da clientela endinheirada. Para muitos desses jovens, repassar algumas dezenas desses comprimidos não é percebido como tráfico. Já para os que viajam ao exterior em busca das sintéticas, essa noção é mais clara mas, muitas vezes, dentro da sua perspectiva, o prêmio prometido compensa o risco que se corre.

No outro extremo dessa realidade de festas e dinheiro fácil está o crack. Mapeamento realizado nas capitais e municípios do Brasil pela Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) e pelos Ministérios da Justiça e da Saúde, divulgado há duas semanas, mostra que a droga barata é o rosto da miséria no País. Consumida basicamente por populações excluídas socialmente, é a droga que oferece alívio rápido e imediato para as mazelas enfrentadas diariamente. O estudo aponta que 50 mil menores (14% dos usuários) consomem crack regularmente no País. A maioria dos usuários mora nas ruas, tem baixa escolaridade, vive de bicos, não é branca. Quase metade já foi presa por delitos ligados ao consumo.

Na mesma semana em que se divulgava por aqui essa pesquisa, a mídia internacional dissecava o Nyaope, uma droga cujo consumo está aumentando em proporção preocupante na África do Sul e cujo crescimento tem paralelos evidentes com o que acontece com o crack no Brasil. Composto por uma mistura de maconha, heroína em baixa dose e componentes de veneno de rato, o coquetel também é barato e altamente aditivo. A mesma dificuldade que se viu aqui em lidar com o crack está acontecendo por lá em relação ao Nyaope. As autoridades não sabem o que fazer para tentar tirar esse jovem pobre da rua.

Drogas que ganham espaço em uma população carente mostram a necessidade de estratégias de intervenção distintas. Sem considerar as questões sociais e as dificuldades dessa população, a adesão ao tratamento e a reabilitação são bem menos prováveis. Insistir em mecanismos convencionais de tratamento pode não dar resultado para quem não tem o menor amparo para viver.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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