Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Na era dos condomínios e academias, clubes tradicionais fecham as portas

Sem conseguir novos sócios e com dívidas impagáveis, pelo menos dez agremiações históricas do Estado de SP faliram nos últimos anos

Gustavo Chacra e Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2011 | 00h00

Com fuga cada vez maior de sócios e dívidas praticamente inegociáveis, clubes que fizeram parte de capítulos importantes da história estão fechando as portas. É o caso do lendário Bauru Atlético Clube (BAC), onde Pelé deu seus primeiros chutes e hoje existe apenas um supermercado, e de uma série de agremiações em Ribeirão Preto, Campinas e São José do Rio Preto. Em Santos, dos quatro clubes que existiam na frente do mar, apenas um continua em pé.

Agremiações da capital também passam por dificuldades. Locais como o Esperia, na zona norte, e o Juventus, na leste, assistem a grande fuga de sócios e aumento de dívidas. Reflexos, em boa parte, da disputa de academias e megacondomínios com instituições centenárias, como o Clube Tietê, que ajudou na formação de Maria Esther Bueno, maior tenista brasileira de todos os tempos, e hoje está praticamente falido.

De acordo com o Sindicato dos Clubes do Estado de São Paulo (SindiClube), mais de dez clubes fecharam as portas nos últimos anos. A decadência coincide com a construção de prédios com amplas áreas de lazer - na capital, os próprios clubes hoje estão sendo assediados pelo mercado imobiliário, que sonha construir suas torres nos poucos terrenos vagos. Muitas pessoas também têm optado por fazer musculação ou pilates em academias, em vez de jogar polo aquático ou bocha com amigos no clube. O Juventus, por exemplo, que nos anos 1980 tinha 130 mil sócios e por muitos anos se vangloriou de ser o maior da América Latina, perdeu quase 100 mil sócios.

"Com o crescimento de empreendimentos imobiliários, com quadras, piscinas, academias e churrasqueiras, as pessoas deixaram de frequentar o clube da Mooca", disse o Juventus, em nota. Também influenciou "a facilidade do acesso das famílias às praias do litoral".

"É um problema de todos os clubes: eles não se renovaram, em termos de atrações para jovens. Hoje a brincadeira da garotada não é a mesma que na minha época", comenta o empresário Angelo Eduardo Agarelli, de 64 anos, conselheiro do Juventus. "E os prédios possuem ampla área de lazer. Não tem mais aquilo de famílias irem ao clube nos fins de semana."

Segundo Ali Abdulhamid, de 24 anos, que deixou de frequentar o Juventus, "a Mooca era um bairro com pouquíssimos prédios e muitos conhecidos". "O local onde todos se encontravam era o clube. Depois, começamos a ir aos prédios de amigos, jogar videogame ou futebol nas quadras dos condomínios."

Interior. Problema semelhante é enfrentado por clubes do interior. "O BAC enfrentou a mesma crise que outros clubes tradicionais de Bauru, como Automóvel Clube e Country Club. O período áureo desapareceu", comenta o historiador Luciano Dias Pires.

Já Eduardo, que preferiu não revelar o sobrenome, pertence a três gerações de sócios da Hebraica, nos Jardins, um dos clubes mais caros de São Paulo. Quando teve filhos, decidiu vender o título. "Todas as atividades para minha filha eram pagas separadamente. Preferi passar a frequentar a Fórmula (academia), onde tudo está incluído."

Sem crise. Apesar disso, A Hebraica não está incluída entre os clubes em dificuldades. Assim como o Paulistano, o Pinheiros, o Harmonia e o Monte Líbano, o clube da Rua Hungria continua em boa situação, sem queda no quadro de associados.

Nas instituições mais caras de São Paulo, há sócios que chegam até mesmo a pagar o clube e a academia. O triatleta e empresário Eduardo Sarhan é um exemplo. Sócio do Paulistano e do Sírio, ele também frequenta a academia Reebok. "Vou à academia mais pelo técnico. O sonho da academia é ser clube e acho que serve apenas como solução à geração mais jovem. Quase 90% dos meus amigos são do clube. Diferentemente da faculdade, nos encontraremos lá até a velhice."

Cesar Roberto Granieri, que dirigiu o Clube Pinheiros e hoje preside o SindiClube, concorda que não existe comparação. "As academias são aparelhos de musculação e lanchonetes. Nos clubes, você tem isso e ainda pode praticar mais de 30 esportes nas piscinas, quadras e pistas. Isso sem falar nas áreas sociais. Se não fossem tão bons, não seriam centenários", afirma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.