Na Cidade Tiradentes, a história é inversa

A história do motorista Carlos Aparecido Pereira, de 57 anos, também começa numa fazenda. Ele nasceu no extremo leste de São Paulo, na Fazenda Santa Etelvina, que também teve a maior parte das terras comprada pela Prefeitura nos anos 1970. Mas, em vez de dar lugar a um parque como em Anhanguera, suas árvores acabaram derrubadas para a construção de ruas, avenidas e um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina: a Cohab Cidade Tiradentes. "Derrubaram tudo, sem dó", lembra.

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2011 | 00h00

Carlos pode ser considerado sortudo no distrito. Sua casa fica no terreno onde ele nasceu, ao lado de um quintal cheio de árvores da época dos pais. O pequeno oásis contrasta com o cinza da Cidade Tiradentes, a região com menos parques e praças de São Paulo - são apenas 3 mil m² de área verde, bem menos que a média da cidade.

A explicação está na explosão de conjuntos habitacionais a partir de 1984, quando a Prefeitura inaugurou o bairro. "Quando nasci, a região devia ter umas 300 pessoas. Agora está beirando as 250 mil."

Quem também guarda memórias antigas da região é o sociólogo José de Souza Martins. Ele nasceu em um dos lotes que resultaram da divisão da antiga fazenda. "Para mim, a Santa Etelvina ainda é aquele imenso território de pequenos sítios esparsos, algumas chácaras, manchas de plantações de eucaliptos aqui e ali, cercados pela bela e exuberante Mata Atlântica." Martins deixou a região em 1950 e nunca mais voltou. "Teria uma grande decepção: a mata já não existe, córregos e rios estão poluídos, os pássaros se foram."

Mesmo com esses e outros problemas, a cultura local e a forte ligação entre as pessoas encantam moradores de Cidade Tiradentes. "Quem é daqui gosta do bairro. E, pouco a pouco, as coisas estão melhorando", diz Carlos.

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