Johan Spanner/International Tribune–12/9/2011
Johan Spanner/International Tribune–12/9/2011

Na cidade dos ciclistas, pedestre pede espaço

Em Copenhague, 55% dos moradores usam bicicleta todos os dias, mas entidade vigia as ruas para punir quem desrespeita as regras de trânsito

John Tagliabue, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2011 | 00h00

THE INTERNATIONAL

HERALD TRIBUNE / COPENHAGUE

Mikael Le Dous está farto dos ciclistas. O engenheiro elétrico de 56 anos anda de bicicleta, assim como seus filhos - embora tenha um carro. Mas ele gostaria que os ciclistas se comportassem melhor. "Chamamos os ciclistas de praga do asfalto."

Le Dous, homem barbado e entusiasmado, não se limita a reclamar dos ciclistas delinquentes. Como chefe da Associação Dinamarquesa dos Pedestres, fundada por ele seis anos atrás, ele dedicou seu tempo livre a combater os excessos. Com uma câmera digital sobre o painel do seu carro, ele fotografa ciclistas que ignoram semáforos, andam na contramão ou atravessam áreas de pedestres. O material é mandado para as autoridades.

Em um país dedicado ao ciclismo, Le Dous tem travado uma batalha particularmente árdua. A associação tem 160 membros e orçamento anual de pouco mais de US$ 2 mil. Mas o foco das queixas é claro. "Eu ando muito de bicicleta. Não tenho nada contra ciclistas. O problema são as pessoas que não respeitam a lei."

Andreas Rohl acredita que viu o futuro e está convencido de que este anda sobre duas rodas. Na prefeitura, ele comanda um bem-sucedido programa que busca tornar as bicicletas o principal meio de transporte. Todos os dias, pelo menos 55% dos habitantes de Copenhague vão de bicicleta para o trabalho ou a escola, embora ele reconheça que, no ano passado, isso diminuiu um pouco por causa do inverno rigoroso. "Trata-se de um meio de transporte muito mais simples, uma maneira fácil de circular."

Vias livres. Amplas ciclovias são comuns na capital dinamarquesa, de 1,2 milhão de habitantes. Em certos dias, orgulha-se Rohl, chega a 36 mil o número de ciclistas cruzando a Norrebrigade, uma das ruas que levam ao centro da cidade que agora consiste em amplas ciclovias em ambos os sentidos, reservando pistas estreitas a ônibus e carros.

Ullaliv Friis, de 66 anos, ex-funcionária municipal e diretora administrativa da associação de pedestres, diz que reconhece o valor de tudo isso, mas chama a atenção para uma consequência de iniciativas desse tipo. Muitos idosos moram nas casas geminadas de um subúrbio ao norte cidade, onde ela reside. Ullaliv diz que as calçadas se tornaram perigosas para eles por causa dos ciclistas mais desatentos.

Le Dous olha com inveja para a Federação Dinamarquesa dos Ciclistas. Fundada em 1905 e com 17 mil membros, a entidade exerce grande influência nas questões de tráfego. Frits Bredal, de 46 anos, ex-jornalista televisivo e atual porta-voz da federação, disse que a organização sabe das queixas contra ciclistas. "Há certa resistência por parte daqueles que ficam frustrados com o fato de as cidades estarem cheias de bicicletas."

Como muitos em Copenhague, a administradora de escritório Natalia Privalova, de 37 anos, tem duas bicicletas - uma tem uma plataforma de madeira para os filhos. Ela disse que os ciclistas respeitam os pedestres. "É claro que, na hora do rush, a história é diferente."

Na prefeitura, Rohl diz que a cidade tenta melhorar o comportamento dos ciclistas. Nas ruas, funcionários orientam o público e recompensam a boa conduta dos ciclistas com chocolates.

Le Dous se diz realista quanto às chances de fazer o debate dar mais atenção aos direitos dos pedestres. Ele disse que a luta deles "não é encarada como algo sério". Então, referindo-se aos ciclistas, ele diz: "São os jovens que recebem toda a atenção." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Dois lados

FRITS BREDAL

PORTA-VOZ DA FEDERAÇÃO DINAMARQUESA DOS CICLISTAS

"As bicicletas não são apenas bacanas e simpáticas. Elas devem ser, e um dia serão, uma parte central das políticas de transporte na Dinamarca"

MIKAEL LE DOUS

DA ASSOCIAÇÃO DOS PEDESTRES

"Pode ocorrer de uma senhora ser surpreendida por uma bicicleta, sem chegar a ser atropelada, mas assustando-se a ponto de cair e possivelmente até morrer. Então eles (ciclistas) respondem: "Que culpa o ciclista tem por ela ser tão velha?""

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