José Maria Tomazela/Estadão
José Maria Tomazela/Estadão

'Na cavalaria tem cavalo ou é só tanque?'

O pouco conhecimento sobre a carreira não impede jovens do interior de tentar uma vaga

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 06h00

SOROCABA - Desde pequeno, o estudante Hudson Pio dos Passos, de 17 anos, tinha o sonho de ser jogador de futebol profissional. Destaque nas quadras da escola e nas “peladas” do Jardim São Guilherme, bairro onde mora, na zona norte de Sorocaba, ele passou por várias “peneiras” de clubes profissionais, mas não conseguiu um contrato. Na última quinta-feira, às vésperas de fazer 18 anos, o rapaz compareceu com o pai na Junta de Alistamento da 14.ª Circunscrição do Serviço Militar e pediu para servir o Exército. “Espero ser chamado”, disse.

Ele explicou a razão de querer trocar o futuro de calção e meias pela farda verde-oliva. “O futebol seria uma aposta arriscada e sair para o mercado de trabalho, com essa crise, fica bem complicado. Então, penso que fazer o Tiro de Guerra e seguir carreira no Exército é algo mais seguro. Acho que tenho físico e cabeça para isso.”

O pai do jovem, o encarregado de produção Irineu Pio dos Passos, de 59 anos, que o acompanhava, disse que ficou feliz com a decisão do menino. “Ele está concluindo o colegial e tem de fazer agora uma opção para o futuro. Levando em conta o atual momento do País, acho que é uma boa escolha, tem chance de crescer.”

Interesse. De 15 jovens abordados pela reportagem na saída da Junta Militar de Sorocaba, quatro disseram que pretendem seguir a carreira militar e, destes, três não tinham esse propósito antes. Só um quer entrar para a Marinha porque o pai trabalha no Centro Aramar, em Iperó, cidade da região. 

A decisão dos outros leva em conta, principalmente, a dificuldade de emprego. É o caso de Renato Henrique das Neves, de 18 anos. “Tenho pouco estudo. Por necessidade de trabalhar e ajudar em casa, só fiz o 1.º grau. O Exército dá salário e oportunidade para estudar.”

Morador da Vila Nova Esperança, na periferia, o rapaz conta que, desde os 13 anos, trabalhou como ajudante em feiras e supermercados, mas agora está desempregado. “Quando era criança, tinha serviço, mas era explorado. Agora que preciso trabalhar, não aparece nada.” O adolescente conta que não estava em seus planos seguir carreira no Exército. “Decidi por esses dias, quando comecei a ver a documentação para me apresentar.”

De acordo com Neves, alguns amigos no bairro, vizinho de uma comunidade, não gostam de polícia e zombaram da escolha. “Eles ‘tiraram uma’ comigo porque acham que polícia e Exército são a mesma coisa. Eu já acho que o Exército vai ajudar a mudar minha vida”, afirma. Como gosta de animais, o jovem disse que pretende conseguir um posto na Cavalaria. “Lá, eu acho que tem cavalos, não tem? Ou é só tanque?” 

Para entender. O alistamento militar no primeiro semestre é obrigatório para todos os jovens do sexo masculino no ano em que completam 18 anos. Sem ele, o cidadão fica impedido, por exemplo, de tirar passaporte, ingressar no serviço público ou ser matriculado em qualquer instituição de ensino – incluindo universidades. 

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