N. Senhora do Brasil pode perder imagem

Mogi quer resgatar conjunto de peças e adornos que pertenciam à antiga matriz

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

O retábulo - conjunto de madeira, imagens e adornos atrás do altar - da Igreja Nossa Senhora do Brasil, no Jardim América, zona sul da capital, está no centro de uma disputa. A Secretaria da Cultura de Mogi das Cruzes, município vizinho da Grande São Paulo, monta uma comissão com historiadores, religiosos, juristas e ativistas culturais para tentar levar a peça, que originalmente era da paróquia matriz de lá, de volta à cidade.

De inegável valor patrimonial, o retábulo atrás do altar é feito de madeira e pintado de dourado. Até 1952, pertenceu à Igreja Matriz de Santana, em Mogi, quando o imóvel ruiu - dando lugar, alguns anos mais tarde, à catedral que existe hoje.

Para não ficar abandonado e ao ar livre, o retábulo foi cedido à paróquia paulistana. "Estamos pensando na melhor maneira de argumentar, porque sabemos que se trata de uma situação difícil, que deve mobilizar a comunidade católica", diz o secretário da Cultura de Mogi das Cruzes, José Luiz Freire de Almeida. "Encaminhei ofícios a entidades como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), solicitando nomes para compor uma comissão."

Polêmica. Se a disputa for adiante, a polêmica promete ser grande. Ao longo dos anos, a peça sacra emoldura os mais estrelados casamentos da elite paulistana, visto que a Igreja Nossa Senhora do Brasil é a preferida dos quatrocentões para enlaces matrimoniais.

"Não vejo sentido em tirá-la daqui. É parte da paróquia, não é um enfeite", defende o pároco Michelino Roberto. "Na época, ela foi comprada de uma diocese para outra. Na minha cabeça, nada justifica tirar uma peça de uso sacro e litúrgico para levá-la a um museu."

De acordo com o especialista francês Germain René Michel Bazin (1901-1990), o retábulo teria sido produzido em 1740 - conforme consta em L"Architecture Religeuse Baroque ao Brésil. Na obra Igrejas Paulistas - Barroco e Rococó, o crítico de arte Percival Tirapelli frisa que se trata de "um dos melhores exemplares de talha barroca paulista, com colunas torsas e cabeças de anjos de grande perfeição".

Para o historiador e arquiteto Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), é bem possível que não haja documentação comprovando a cessão da peça, nos anos 50. "Diz-se que, quando a igreja antiga de Mogi foi demolida, o padre pegou os castiçais e as imagens sacras e pediu para as famílias tradicionais da cidade guardarem até que a catedral ficasse pronta. Sem nenhum controle. Acha que depois voltou tudo?", comenta ele. O mesmo pode ter acontecido com o retábulo.

Quando a peça veio para São Paulo, a Igreja Nossa Senhora do Brasil era bastante nova. A pedra fundamental de sua construção foi lançada em 1942, pelo arcebispo de São Paulo José Gaspar de Afonseca e Silva (1901-1943). A primeira missa foi ali celebrada em 7 de setembro de 1944.

Sem precedentes. O pároco da Nossa Senhora do Brasil, padre Michelino Roberto, informou que aguarda a chegada de algum documento oficial de Mogi para analisar que providências devem ser tomadas. "Como não recebi nada, nem consultei a arquidiocese", frisa.

A Arquidiocese de São Paulo afirmou que ainda não havia sido comunicada oficialmente da montagem dessa comissão e, portanto, não poderia expressar opinião sobre o caso. A pedido do Estado, o Departamento Jurídico da entidade foi consultado - e não havia precedentes que possibilitassem antever uma ideia de como a Igreja costuma agir em casos semelhantes.

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