Músicos rompem rotina e humanizam hospitais

Projeto difundido na Europa chegou ao Brasil no ano passado; aumento na qualidade do atendimento a pacientes de hemodiálise já é perceptível

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2014 | 02h01

SOROCABA - Os olhos da aposentada Filomena Cruz, de 81 anos, opacos pela doença, se enchem de luz e os lábios se movem acompanhando os acordes do violão de André Luiz de Oliveira, de 32, no Hospital Santa Lucinda, em Sorocaba, interior paulista. A paciente se deleita com as vozes de Alice Machado, de 19, e Isabela Barboza, de 18. Os sons de Luar do Sertão rompem a rotina do setor de hemodiálise.

André e as cantoras são parte do Músicos do Elo, projeto de humanização do ambiente hospitalar que, segundo uma pesquisa, está melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Desenvolvido pelo músico brasileiro Victor Flusser há 15 anos, na Universidade de Strasbourg, na França, o projeto se difundiu na Europa. No Brasil, o trabalho começou em 2013, com a criação do curso de formação de músico na Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em Sorocaba.

O médico Fernando de Almeida, professor de Nefrologia, conta que já conhecia o trabalho de Flusser na Europa e pretendia trazê-lo para o programa de humanização do hospital. O pesquisador manifestou interesse em trabalhar no Brasil e a universidade conseguiu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp).

Treinamento. Fussler explica que a formação do músico é específica para a atuação no ambiente hospitalar. O curso dura um ano e inclui noções de saúde, psicologia, regras do serviço hospitalar e estágios supervisionados em hospitais. Os músicos são remunerados e alguns já têm esse trabalho como a principal ocupação. "É um profissional da cultura trabalhando com profissionais da saúde."

Em sua pesquisa de mestrado, o psicólogo Thiago Reis Hoffmann estudou durante mais de um ano pacientes do setor de hemodiálise do Santa Lucinda que receberam visitas dos músicos. No grupo atendido, a qualidade de vida melhorou, os pacientes ficaram mais sociáveis e com mais disposição para atividades físicas.

O projeto atende também o lar de idosos da Aldeia Emaús da cidade, o Hospital São Camilo, em Itu, e o Instituto da Criança, no Hospital das Clínicas de São Paulo. Leiliane Camargo, de 32 anos, é contratada do São Camilo. Com licenciatura em Música, toca flauta e percussão. Ela já trabalhava como auxiliar técnica de enfermagem quando se candidatou a uma vaga no curso do Elo. "Amo servir e gosto de tocar pessoas pelo som."

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