Músico reclama de pichação e leva facadas de punks

Professor pediu que seu conservatório em Guarulhos fosse poupado de vandalismo, mas terminou agredido por três jovens

Camilla Haddad e Bruno Lupion, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2011 | 00h00

O professor de música Walflan Henrique Ribeiro foi esfaqueado na noite de anteontem por um grupo de punks após pedir a eles que não pichassem o muro de seu conservatório musical, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Ele foi golpeado na cabeça, na barriga, no braço e está na UTI do Hospital Carlos Chagas. Três suspeitos do crime - um rapaz de 18 anos e dois menores - foram detidos em flagrante.

Ribeiro, de 37 anos, mantém seu conservatório desde 2005 no Parque Renato Maia, área nobre da cidade. Ali, ele ministra mais de 30 cursos de música, além de ter um estúdio. Ele também mora no local. Segundo boletim médico do hospital, divulgado às 17 horas de ontem, o músico não corre risco de morte, mas não tem previsão de alta. Além dos ferimentos causados pelas facadas, ele também foi chutado e levou socos na cabeça.

Vizinhos do conservatório viram a cena. Assustados com a agressão, disseram que é comum encontrar grupos de adolescentes e adultos vestindo roupas pretas e andando pela região, já que eles se reúnem em um parque perto dali.

Segundo a noiva de Ribeiro, Cristina Valentim, o muro do conservatório havia sido pintado recentemente. "Ele viu as pessoas pichando e não admitiu, porque isso já tinha acontecido", contou.

Uma testemunha que pediu para não ser identificada viu o professor ser atacado. "Foi horrível. Ele ficou caído no chão, gritando por socorro, até ser levado para o hospital."

Outro vizinho de Ribeiro, que também preferiu não ser identificado, correu em direção aos punks e conseguiu dispersá-los. Ele ainda imobilizou dois jovens e os entregou à Guarda Civil Municipal. Segundo ele, as facadas foram desferidas por uma garota de 17 anos. "Ela questionou um punk que não teve coragem de usar a faca, pegou a arma da mão dele e começou a golpear o professor", disse.

"Contra repressão". Os jovens detidos se definiram como "punks anarquistas" e disseram lutar contra a "repressão". De acordo com o guarda-civil Alan Ribeiro, eles justificaram a agressão como uma defesa do "livre arbítrio" para escrever mensagens nos muros.

Os punks afirmaram ainda que o bairro onde está o conservatório da vítima é "antro de nazistas". Antes da agressão ao professor, eles picharam no conservatório dizeres como "era punk", "antifascista" e "anticareca", em referência aos skinheads, com quem os punks têm rixa (leia ao lado).

O caso foi registrado no 1.º Distrito de Guarulhos, que abriu inquérito. A tia da garota de 17 anos, que pediu para não ser identificada, contou que de um ano para cá a sobrinha passou a usar roupas pretas e raspou a cabeça. "A família está desesperada com tudo isso. Não sei explicar o que houve. Ela é uma adolescente", repetia ontem. A tia nega que a garota tenha se envolvido no crime. "As pessoas que foram liberadas disseram que ela não fez nada. Apenas correu", disse.

Outros três menores de idade foram detidos e levados ao distrito policial, mas acabaram liberados pois não foram reconhecidos pelas testemunhas. O rapaz preso e os adolescentes detidos seriam transferidos ainda ontem para um Centro de Detenção Provisória e para a Fundação Casa, respectivamente.

PARA ENTENDER

As manifestações de punks contra skinheads em Guarulhos marca mais um ponto de rivalidade entre os dois grupos. Os primeiros são voltados ao anarquismo e subdividem-se em diferentes ideologias e atitudes - muitos são pacifistas, mas há grupos violentos. Já os skinheads são ligados a grupos neonazistas e nacionalistas. Na Grande São Paulo, já se envolveram em agressões a homossexuais e negros.

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