Musical vai resgatar a história do Bexiga

E levar ao palco do Sérgio Cardoso a partir do dia 13 personagens marcantes do bairro

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

Cem dias de produção. Quatrocentas horas de ensaio. Quando as cortinas do Teatro Sérgio Cardoso se abrirem, daqui a duas semanas, às 21horas do dia 13, um novo capítulo será escrito na história dos musicais paulistanos. E, de certa forma, na história do tradicional bairro do Bexiga (oficialmente, Bela Vista) - sempre presente no imaginário popular pelas cantinas e sotaque italianos, pela boemia e pela afinidade artística.

Trata-se do musical Bixiga - assim, com "i". Genuinamente brasileiro, em contraponto a outros espetáculos enlatados que ganharam nos últimos anos palcos de teatros como o Alfa e o Abril e deram a São Paulo o título de Broadway brasileira.

"Estamos chamando o nosso de "musical na contramão" e trabalhando a ideia de que há uma forma brasileira de fazer um teatro musical, apoiado na tradição mais legítima de nossa cultura", afirma Mario Masetti, diretor da peça, do teatro e idealizador do projeto.

Tradição evidente não só no formato - que relembra os velhos teatros de revista das primeiras décadas do século 20 -, como também no humor e na escolha dos personagens, que fazem alusão a figuras importantes na história do Bexiga.

"Nossa ideia era aproveitar que o teatro está localizado nesse bairro e trazer o bairro ao teatro, contando sua história em nosso palco", explica Masetti. Um raciocínio que deixaria o escritor russo Léon Tolstoi (1828-1910) orgulhoso - é dele a frase "se queres ser universal, começa a pintar a tua aldeia".

Processo e equipe. A ideia do musical surgiu em setembro do ano passado, quando foram realizadas as primeiras reuniões entre a direção do teatro e um grupo de artistas ligados às artes cênicas. "Em dezembro, começamos a escrever", conta o dramaturgo Edu Salemi, um dos três que assinam o texto da peça.

Os subsídios históricos ficaram a cargo da jornalista e pesquisadora Solange Santos, que se debruçou sobre livros, jornais e revistas a fim de identificar passagens relevantes do bairro, personagens representativos e locais emblemáticos.

"Foram cerca de dez bons livros de referência", recorda-se. "Chegamos a alguns temas-chave da história do bairro, como o futebol, o carnaval, o teatro e, é claro, a comida e a música."

Essa pesquisa alimentava Salemi e seus dois colegas de escrita, Enéas Pereira e Ana Saggese. "Exploramos a história do bairro sem fazer algo institucional, escolar", afirma Pereira. "Fizemos uma homenagem que sabe rir de si mesma."

À frente desses profissionais - e do maestro, do coreógrafo, da preparadora de voz e de quatro arranjadores -, 23 atores encarnarão os personagens.

Por trás, um trabalho intenso de 12 figurinistas, 15 cenotécnicos, 4 maquiadores, 9 iluminadores, 7 maquinistas, 5 contrarregras, 7 produtores e 4 sonoplastas. Boa parte dessa mão de obra foi formada no próprio Sérgio Cardoso, em um projeto de oficinas gratuitas iniciado no teatro em fevereiro.

Personagens. "A peça começa com a chegada dos imigrantes italianos ao bairro", conta o dramaturgo Pereira. Isso em meados do século 19, quando o baixo custo das terras da região atraía os imigrantes que não queriam ser empregados. "Os italianos que se instalaram ali abriram pequenos negócios, como uma alfaiataria, uma marcenaria...", exemplifica Ana Saggese.

Vivido pelo ator Eduardo Silva, a estátua do músico Adoniran Barbosa - instalada, de fato, na Praça Dom Orione - ganha movimentos e se torna o guia da peça. (O músico jamais viveu no Bexiga, mas muitas de suas canções têm o bairro como pano de fundo.)

Outros personagens reais também são relembrados na peça, como os fundadores da escola de samba do bairro, a Vai-Vai, o jogador de futebol Feitiço - que passou a infância na região, no início do século 20, e depois jogou no Santos, no Corinthians, no Palmeiras (então Palestra Itália) e até no uruguaio Peñarol -; Francisco Capuano (interpretado por Paulo Goulart Filho), que fundou, em 1907, a cantina Capuano - aberta até hoje, a mais antiga em funcionamento ininterrupto na capital paulista; e a aristocrata Sebastiana de Melo Freire, conhecida como Dona Yayá (interpretada por Wilma de Souza), cujo casarão, tombado, atualmente pertence à Universidade de São Paulo (USP).

A convite do Estado, alguns atores visitaram, na quarta-feira, os locais no bairro relacionados à vida de seus personagens. As fotos ilustram esta página.

O NOME DO BAIRRO

BEXIGA OU BIXIGA?

Não há um consenso sobre a grafia e a origem do nome como popularmente ficou conhecido o bairro da Bela Vista. O "Estado", por padrão, utiliza a grafia Bexiga. Uma das versões conta que no século 18 o local pertencia ao proprietário rural Antônio José Leite Braga, que foi acometido por varíola, cujo nome popular é "bexiga". "Outra versão diz que no bairro havia um matadouro onde o povo comprava miúdos de boi, entre eles a bexiga", diz a dramaturga Ana Saggese.

Os primeiros registros de habitação no local datam de 1559. Ali era uma grande fazenda, do português Antônio Pinto, chamada Sítio do Capão. Décadas depois, passou a se chamar Chácara das Jabuticabeiras.

TRECHO DO MUSICAL

"O Bixiga de hoje

se modificou

Já não temos mais aquela

Situação

Espéria nem Cine Rex

Cabô as briga de

gilete

Fechou o Madame Satã...

...Alfaiate é coisa rara

E sumiu

Foi também a seda

chinesa

E o chapéu

Paletó se compra em

shopping

Calça jeans que dá ibope

Furada com a bunda

ao léu

O Bixiga de hoje se

Modificou"

Serviço

BIXIGA. TEATRO SÉRGIO CARDOSO.

RUA RUI BARBOSA, 153, BELA VISTA. DE SEXTA-FEIRA, 13/8, A DOMINGO, 31/10.

INFORMAÇÕES: 3288-0136. R$ 20

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