Música abstrata de Sakamoto hipnotiza o público do Sónar

Plateia assistiu sentada à abertura de ontem como se fosse recital; na 1ª noite, Kraftwerk lembrou futurismo dos anos 70

JOTABÊ MEDEIROS , ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h01

O segundo dia do Sónar - Festival Internacional de Música Avançada e Arte New Media, no galpão de exposições do Anhembi - apostou na efervescência da música contemporânea, que vai muito além do pop. A única concessão foi o soulman Cee Lo Green, que ainda veleja tranquilo na onda de popularidade do hit Forget You - cuja versão original é F... You. Ele foi o segundo a se apresentar para um público muito maior do que no primeiro dia.

O compositor e pianista japonês Ryuichi Sakamoto (ganhador do Oscar pela trilha sonora de O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci) cuidou da abertura. Com uma música nada animada, mas extremamente sofisticada, o músico prendeu a atenção do público de uma forma impressionante.

A plateia permaneceu sentada como se estivesse de fato em um recital, prestando atenção em cada acorde. Parecia uma espécie de transe. Sakamoto faz uma música eletrônica abstrata, imprecisa e cheia de improvisos. Sem começo, meio e fim, é um tipo de música que poderia durar a noite toda. O compositor chegou até a dar um biz.

Primeira noite. Às 23h30 de sexta-feira, o Kraftwerk subiu ao palco com seus uniformes fosforescentes que lembram o futuro do filme Tron (1982), primeira animação da era pré-computadorizada. Mais de 15 mil pessoas com óculos testemunharam o primeiro show em 3D no Brasil.

A banda alemã abriu com (We Are) The Robots, cartão de apresentação de um tempo de euforia espacial, em que eles foram os primeiros, na música, a enxergar com os óculos da antiutopia. Após uma hora de show, muitos assistiam sem os óculos, interessados mais na música que nas projeções. Um lugar menor talvez potencializasse os efeitos (a banda fez isso em Nova York, no Museu de Arte Moderna, MoMA, com grande impacto).

Curioso que a banda proibiu fotógrafos profissionais de registrarem seu show - todo mundo hoje fotografa e grava com celulares. O protótipo de um desktop antigo surgia na tela durante a música Computer World, enquanto o público, com Ipads e celulares, filmava o show, num choque proposital entre obsolescência e atualização tecnológica.

A noite seguiu para uma mistura bipolar de agressividade e contemplação. Criolo e James Blake faziam soul contemporâneo. O rapper MF Doom destilava rimas nervosas. Foi quando o DJ escocês Hudson Mohawke subiu ao palco principal e, com ecos de hip hop sulista, incitou a sensualidade. A música era lenta, viscosa, grave e variava apenas para construir tensão e desferir o pancadão perverso. Sirenes davam urgência marcial às faixas - sensação ampliada pela clássica bateria eletrônica TR-808. O tom bélico de uma corneta militar wagneriana levou o público ao delírio, e o Mohawke tocou o único hit de seu set, a doce Genesis, da cantora Grimes.

Depois foi a vez do Chromeo levar a noite ao ápice. Na frente de duas mesas de som sustentadas por sensuais pernas de plástico, Dave 1 e P-Thugg não fizeram nada refinado. Só electrofunk com refrões contagiantes, em sequência compacta para tirar a pista do chão - feijão com arroz que faltava ao festival.

Shopping japonês. Meio armazém, meio salão do automóvel, o Anhembi lembrava um shopping japonês em sua vibração digital. Havia grama sintética num dos palcos e telões com videogames em outro saguão. Parecia uma expo de música eletrônica contemporânea. Apesar de o acesso entre um palco e outro ficar congestionado, havia amplo espaço no palco principal com área de descanso. Comes e bebes na faixa de preço de outros festivais: R$7 a cerveja; R$ 10 a pizza. Havia banheiros em quantidade suficiente, mas longe dos palcos, especialmente do palco principal, e as diversas locações estavam mal sinalizadas.

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