Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Museu reabre com história do Bexiga e do carnaval

Local abriga objetos do compositor Adoniran Barbosa, sapatos da Carmen Miranda, fantasias e adereços da escola de samba Vai-Vai

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - O aspecto ainda é o de um depósito abandonado, um lugar onde a memória se escondeu para morrer quietinha. Mas, aos poucos e com muito esforço, a poeira vai sendo expulsa do casarão - e um pedaço da história de um dos bairros mais icônicos de São Paulo poderá receber visitas outra vez. Depois de mais de uma década sem uma programação regular, com usos apenas esporádicos, o Museu Memória do Bexiga (Mumbi) reabre neste sábado, 16, suas portas ao público.

De início, o imóvel número 118 da Rua dos Ingleses, funcionará apenas aos finais de semana - e sem cobrar entrada. A partir de hoje, o museu abrigará duas exposições: uma sobre os carnavais do Bexiga (com fantasias, fotos e materiais da escola de samba Vai-Vai e de blocos que fizeram a fama do bairro, como os Esfarrapados) e outra sobre a história do tradicional Bolo do Bexiga.

Após o carnaval, uma exposição sobre o futebol de várzea do bairro também deve movimentar o museu. “O bairro inteiro é um museu. Nós queremos funcionar apenas como um epicentro disso: o museu das pessoas simples que escreveram a história do Bexiga”, diz um dos fundadores do Mumbi, Paulo Santiago de Augustinis, de 72 anos.

Entre uma série de raridades, o museu tem objetos do compositor Adoniran Barbosa, sapatos da Carmen Miranda, fantasias e adereços da Escola de Samba Vai-Vai, fotos do início do bairro e dos primeiros imigrantes, correspondências de prisioneiros de guerra e muita memorabilia de gente comum - de sapateiros, barbeiros, ferreiros e parteiras. “Estamos tirando essa cara de depósito e começando a arrumar a casa”, avisa o diretor do espaço Diego Rodrigues Vieira, de 29 anos. 

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É o começo do processo. Queremos devolver o espaço para a comunidade, com atividades, oficinas e exposições. Agora estamos mais perto de tudo isso
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Diego Rodrigues Vieira, Diretor do espaço

Nos anos de 20, o casarão foi a residência de um italiano sem herdeiros. Por isso, ao morrer, o imóvel transformou-se em patrimônio da União. Sem destinação, não demorou para que fosse invadido por moradores de rua e traficantes. Lendas ao redor da casa afirmam que a deterioração era tão grande que até um assassinato teria acontecido ali. Só no início dos anos 80, quando a casa estava novamente vazia, ela foi reocupada por aquele que atuou a vida inteira como “embaixador”, agitador cultural e historiador autodidata do bairro do Bexiga: Armando Puglisi, o Armandinho do Bexiga.

Material da vizinhança.

Baseado na experiência de um dos primeiros museólogos brasileiros, Júlio Abe Wakahara, responsável pelo chamado Museu de Rua (exposições em espaços públicos que contavam a história dos bairros e seus moradores), Armandinho também começou a coletar “material” dos vizinhos e amigos. “Armandinho dizia que quando alguém morria no Bexiga os parentes costumavam jogar tudo fora. A ideia dele era recuperar a memória perdida do bairro”, diz a presidente da associação Museu Memória do Bexiga, Vera Rodrigues. 

Mas, como o casarão estava ocupado de forma irregular, começaram os problemas. No início dos anos 90, no governo Fernando Collor de Mello, a União tentou reaver o imóvel. E ele só não foi perdido graças a habilidade política de Armandinho. 

Na época, o idealizador do museu descobriu que a mãe da então toda poderosa ministra Zélia Cardoso de Mello, Auzélia Martoni Cardoso de Mello, tinha descendência italiana. “Armandinho bolou uma homenagem para a mãe da Zélia. Foi uma ideia genial. A própria ministra compareceu e se divertiu muito”, afirma Santiago. Pode ser coincidência, mas após a visita e a homenagem, não se falou mais em o museu deixar o casarão.

O processo para devolver o prédio ficou adormecido até o governo Fernando Henrique Cardoso - quando o imóvel passaria para a Polícia Federal. “Queriam que aqui fosse a sede da Interpol. Pode uma coisa dessas?”, brinca Augustinis.

Tudo parecia rumar para um final feliz. Mas, em 1994, Armandinho morreu de câncer no pâncreas. O museu ficou abandonado, os problemas financeiros se acumularam e o casarão foi, mais uma vez, invadido. Só a partir de 2015, a associação reassumiu o lugar e, aos poucos, com eventos esporádicos, amadureceu a ideia de uma reabertura. Hoje, o grupo que administra o museu tem a posse provisória do casarão e os trâmites para aquisição definitiva estão em andamento. Para Vieira, o que está ocorrendo agora é só o começo.

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