Eduardo Nicolau/AE
Eduardo Nicolau/AE

Museu Paulista fará restauro ao vivo de obra

Quadro de Almeida Júnior estava no teto da antiga Igreja da Sé, demolida em 1912, ao lado de outras construções, para dar lugar à praça atual

Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2010 | 01h00

O público que visitar o Museu Paulista, no Ipiranga, zona sul de São Paulo, vai poder acompanhar ao vivo ainda neste ano a restauração da tela A Conversão de São Paulo a Caminho de Damasco, do pintor Almeida Júnior, que ficava no teto da antiga Igreja da Sé, demolida há quase cem anos.

A pintura, concluída em 1889, foi levada para o museu em 1912, quando a igreja e algumas construções do entorno foram demolidas para dar lugar à atual Praça da Sé. A obra chegou a ser exposta, mas já estava guardada havia 15 anos. Por uma porta de vidro, os visitantes vão poder ver o trabalho da equipe de restauradores, que deve durar 11 meses e só aguarda agora aprovação da Universidade de São Paulo (USP).

Do lado de fora, na antessala, um painel será atualizado com fotos e explicações de cada fase de restauração. Nesse espaço, a partir do dia 16 do próximo mês, haverá também uma exposição sobre a pintura, a igreja que a abrigava e o processo de demolição. "Será uma exposição que informa e contextualiza", diz a curadora, Heloisa Barbuy.

A mostra vai reunir imagens como a reprodução de uma foto de Aurélio Becherini, tirada em 1910 no interior da antiga construção, que destaca a pintura no teto. Também serão exibidas fotos da demolição, alguns fragmentos originais, cartões-postais que retratam as etapas de construção da atual Catedral da Sé e imagens da Praça da Sé entre 1940 e 1970.

Um dos fragmentos que será exposto no próximo mês é o antigo marco da Praça da Sé, retirado quando o templo foi demolido. Conforme a restauradora do museu, Yara Petrella, esse tipo de trabalho desperta curiosidade - e por isso se decidiu aproveitar o momento como processo educativo. "O museu tem essa função. As pessoas vão poder ver que um trabalho de restauração não começa de repente. Há uma preparação longa e difícil."

Restauro. Os documentos do acervo do museu registram que a pintura de Almeida Júnior que será restaurada chegou muito danificada e já passou por outras intervenções. "Era comum os pintores restaurarem telas, achando que a tecnologia resolveria os danos. Na verdade, eles não restauravam, pintavam em cima. Essas restaurações antigas são consideradas inadequadas hoje", explica Yara.

Por causa do tamanho - 4,5 por 3,7 metros -, a tela não passa em nenhuma porta do museu. Para levá-la ao local do restauro, foi preciso reunir várias pessoas para retirá-la da moldura e enrolá-la num tubo de papelão.

Durante a preparação para o restauro, que já dura dois meses, a obra foi fotografada quadro a quadro. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio (UFRJ) convidados pela equipe do museu fizeram um raio X computadorizado e um processo de fluorescência, para analisar as condições da pintura e identificar materiais e pigmentos. "A tela é dividida em várias partes e está com vincos nas emendas, o suporte original tem fissuras, rompimentos", detalha Yara, que vai coordenar uma equipe de três profissionais de uma empresa contratada apenas para auxiliar na restauração.

"O objetivo é chegar o mais próximo possível da pintura original, livre de intervenções, para que a obra seja apreciada sem ruído. Mas temos de estabelecer limites e evitar mais danos", diz Yara. "A própria obra vai nos informando o limite, conforme o trabalho se desenvolve."

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