Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Museu do Ipiranga tem trinca gigante

Estudo da restauração revela fissura de 123 m de lado a lado do prédio; trabalho de análise do edifício, que está fechado, usa até rapel

Edison Veiga - O Estado de S.Paulo,

19 de outubro de 2013 | 21h28

Estudos realizados no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, indicam a existência de uma imensa trinca de lado a lado - 123 metros - do imenso prédio. "É decorrência da variação de temperatura. A frente do edifício recebe alta incidência de luz solar. Nos fundos, predomina a sombra", diz o restaurador Antonio Sarasá.

Após monitorar durante meses as variações térmicas, sua equipe chegou a registrar variações de calor entre 26°C e 70°C. O museu está fechado para restauro e a análise feita é preliminar - o laudo será concluído em dezembro.

A princípio, a rachadura não causa problema na estrutura do prédio. "É uma acomodação do material, em virtude da dilatação dos tijolos", diz Sarasá. "O problema é que isso permite infiltração d’água no prédio. Por isso, uma solução será necessária." A ideia é adotar uma resina flexível, para vedar essa trinca. Testes de material devem ser feitos nos próximos dias.

O estudo identificou outras patologias no edifício, inaugurado há 123 anos. "Agrupamos os problemas em 12 tipos. Há desde colônias de insetos até problemas com umidade", diz a arquiteta Magda Garcia da Rosa.

Outro ponto interessante notado pela equipe técnica é como a iluminação oriunda dos 50 holofotes que circundam o prédio, acendidos todas as noites, vem de um tipo inadequado de lâmpada. "Isso está danificando a argamassa. E ajudando na proliferação de fungos", adverte Sarasá.

Somadas e concluídas, as análises se tornarão a base de estudos utilizada para as propostas de obras, que devem começar só no início do ano que vem.

Rapel. Os trabalhos que devem resultar em um completo plano de restauro do Museu do Ipiranga continuam intensos. Na quinta-feira, operários utilizaram técnicas de rapel para ter acesso a alguns pontos da fachada - e o Estado acompanhou a equipe.

Trata-se de um trabalho complementar. Desde julho, técnicos estão esquadrinhando todo o prédio em busca de problemas. As análises são feitas a cada 4 centímetros quadrados. Para tanto, eles usaram uma plataforma móvel. Porém, em cerca de 20% do prédio, não foi possível chegar por meio dessa plataforma - por causa de obstáculos, como as escadarias ou mesmo árvores.

Aí entram os especialistas em rapel. O trabalho deve demorar cerca de 10 dias - se o tempo colaborar, uma vez que a chuva impede as descidas. "O prédio todo foi dividido em setores, e agora realizamos uma etapa de cada vez, com critério", explica o oficial de restauro Rogério Paz. Sem medo de altura, do telhado do museu - a mais de 30 metros do solo - ele comanda as descidas dos dois restauradores especializados em rapel, Ednaldo de Oliveira e Antonio Marcos Souza Santos.

A operação é toda supervisionada por funcionários do museu. A cada entrada e saída do prédio, os restauradores precisam se identificar - mesmo que façam isso diversas vezes ao dia. Um funcionário da instituição foi destacado para ficar de plantão na cobertura, verificando se toda a operação transcorre sem danos ao histórico prédio da cidade.

Nas descidas de rapel, os técnicos não só analisam e fotografam a fachada, como também recolhem pedaços desprendidos de argamassa - encaminhados para estudo.

Limite. Um dos mais visitados cartões-postais de São Paulo - recebia um público médio de 300 mil pessoas por ano -, o Museu do Ipiranga não suportou as toneladas de 150 mil itens do acervo, as intempéries, os mais de 100 anos de idade do prédio e a falta de obras de conservação.

Sua interdição foi decretada no dia 3 de agosto, após um laudo apontar graves riscos de queda nos forros de alguns cômodos. Ainda não há prazo oficial para a reabertura - mas fontes ouvidas pelo Estado confirmam que, desde que foi fechado, o museu vem sendo tratado como prioridade na alta cúpula da Universidade de São Paulo (USP), que o administra.

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