Município de Santa Isabel quer mais água da Represa do Jaguari

Moradores reclamam de que água disponível não é suficiente nem para as necessidades básicas, como tomar banho

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

14 Agosto 2014 | 17h58

SANTA ISABEL - Os 51 mil habitantes do município de Santa Isabel, na Grande São Paulo, convivem com a falta de água. A cidade é a mais próxima da capital abastecida pela Represa de Jaguari, cujas águas estão no centro de uma disputa entre o governo de São Paulo e o do Rio de Janeiro. Sem condições de resolver o problema, a prefeitura decidiu repassar o serviço municipal de água à Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). O convênio já foi assinado e a transição está em andamento.

De acordo com a diretora do Departamento de Água e Esgoto, Adriana Zamboni, a cidade capta apenas 30% da água na represa. Os outros 70% são retirados do Rio Araraquara, que está com nível muito baixo. “Nós precisamos de mais água do Jaguari, mas não conseguimos ampliar a captação na represa.” Ela acredita que, com a transferência, vai ficar mais fácil ampliar o abastecimento. “A outorga para captação tem de ser dada pelo DAEE (Departamento de Água e Energia Elétrica) que é Estado, como a Sabesp.”

A prefeitura não foi consultada sobre o projeto do governo estadual de transpor parte da água da Represa do Jaguari para o Sistema Cantareira, que abastece a Grande São Paulo e apenas acompanha a pressão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para que a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) aumente a saída de água da represa. “Essa briga é entre São Paulo e o Rio e nós ficamos no meio do caminho, como meros expectadores”, disse a diretora.

 Nesta quinta-feira, não tinha havido alteração na operação da represa, que mantinha nível em torno de 38%. No braço de água onde o sistema de captação de Santa Isabel está instalado sobre uma balsa, o nível estava 70% abaixo do normal. “O sistema está comprometido, mas acredito que por falta de chuva. No mês de dezembro, sempre tivemos 300 milímetros de chuva aqui, mas neste último não choveu nem 100.” 

Moradores. A população não tem certeza se o serviço vai melhorar com a Sabesp. “O que sei é que pago a conta todo mês e não tenho água nem para tomar banho”, reclama Adão Adelino, de 61 anos, morador da Vila Nova Santa Isabel. A água que chega, segundo ele, não é suficiente para encher a caixa. Outro morador, André Luis de Souza, de 32 anos, reclama que o líquido sai da torneira com mau cheiro.

Situação pior é a do Jardim Eldorado, que recebe água um dia por semana, segundo a moradora Janaína de Paula Ferreira, de 18 anos. O comerciante Fabiano de Souza Farias, de 35, cavou um poço para abastecer seu restaurante. A diretora do DAE diz que em dois meses a Sabesp assume e deve anunciar medidas para melhorar o abastecimento. 

Parecer. De acordo com o engenheiro agrônomo Juarez Domingues de Vasconcelos, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul, que abrange a região paulista da bacia, o Rio Paraíba e seus reservatórios abastecem 60% dos municípios e a Sabesp já detém os serviços da maioria deles. “É natural que o governo de São Paulo queira reservar água para atender essa população e também para o Sistema Cantareira.” 

O problema, segundo ele, é o compromisso assumido na década de 1960, pelo qual as represas do Jaguari e do Paraibuna, no trecho paulista, garantiriam a liberação necessária para que um volume de 190 m³ por segundo de água siga para o Rio de Janeiro. “Se Jaguari não libera, a água tem de sair da Represa de Paraibuna, que deveria trabalhar com 45% da capacidade e está com 13%", disse.

Na última sexta-feira, a Sabesp apresentou oficialmente ao comitê o anteprojeto para a transposição das águas da Represa do Jaguari para a de Nazaré Paulista, do Sistema Cantareira. Vasconcelos preside o grupo de trabalho que dará parecer sobre o projeto em reunião marcada para segunda-feira, 18. Para ele, o projeto precisa ter aval do governo federal por duas razões: como a represa está em área de proteção ambiental federal -APA de Igaratá - o projeto tem de passar pelo Instituto Chico Mendes de Proteção à Biodiversidade (ICMBio). A outra razão é o fato de integrar uma rede de geração de energia administrado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

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