Múmias achadas na Luz seriam freiras carmelitas

Notícia surpreende arqueólogos; até então se pensava que apenas concepcionistas estavam enterradas no mosteiro da região central

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2010 | 00h00

Uma descoberta no Mosteiro da Luz, região central de São Paulo, surpreendeu os arqueólogos responsáveis por analisar as três múmias e oito esqueletos encontrados na capela funerária, em 2008. Em três dos seis túmulos havia objetos de freiras da ordem das carmelitas. Mas há mais de 200 anos quem vive no local são irmãs concepcionistas. E o que isso tem de tão espantoso?

Para os pesquisadores, a descoberta de dois escapulários do Sagrado Coração e de um manto mortuário marrom ? característicos da ordem das carmelitas ? representa comprovação rara do convívio entre as duas ordens na cidade, já a partir do século 18. "Os indícios podem ser a comprovação física da proximidade entre as freiras, pois não havia registros do enterro de irmãs de outras ordens na capela. Também representa ajuda entre as ordens em momentos difíceis, nas epidemias ou no cotidiano de pobreza da época", explica a historiadora Valdirene Ambiel, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), órgão responsável pelas pesquisas no mosteiro.

As intervenções arqueológicas no local, iniciadas em fevereiro de 2008, terminaram no mês passado. Até agosto, um relatório com as hipóteses e conclusões da equipe ? e com o inventário dos cerca de 1 mil objetos encontrados na capela ? será encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "O mais importante é o registro histórico, as pistas sobre os hábitos da vida monástica em São Paulo nos séculos 18 e 19, tema carente de documentação", diz Valdirene.

Entre os fatos descobertos estão as datas prováveis em que duas das freiras morreram, conseguidas após testes de carbono 14: uma morreu em 1880 e outra, em 1780 (há margem de erro de 40 anos). Como o convento foi fundado em 1774, os técnicos afirmam que ao menos uma é contemporânea de Frei Galvão (confessor das concepcionistas), canonizado em 2007.

A cor de outras vestes encontradas ? azul ? revela possibilidade própria do período histórico: a de as irmãs terem sido enterradas como leigas. "A praxe de concepcionistas ordenadas é serem enterradas de branco e com véu preto", diz a historiadora. "O que explica o indício de enterro como leigas é que não havia conventos femininos autorizados em São Paulo, apenas recolhimentos", não reconhecidos pela Igreja. Foi assim até o fim do Império."

Para o cônego Celso Pedro da Silva, procurador do Mosteiro da Luz, há "dúvidas" a respeito do material carmelita. "Não vejo polêmicas quanto aos escapulários, pois eram objetos de devoção de outras ordens também. O manto marrom é que causa estranheza, e vou pesquisar nos arquivos", disse. "Mas pode ser só "interpretação" dos arqueólogos. Duvido que carmelitas foram enterradas no mosteiro."

Hábitos. Mesmo sem acesso ao arquivo das concepcionistas ? não há autorização das irmãs para pesquisa ?, alguns hábitos foram revelados. Os cinco pares de sapato encontrados tinham solas desgastadas, "por uso intenso". As patelas ? nos joelhos das irmãs ? apresentavam patologias, pelas horas em que ficavam orando. Quatro freiras apresentaram queda dos dentes antes de morrerem ? sinal de dieta pobre em vitaminas. E ao menos uma era deficiente física, com "cifose na vida adulta", conforme assinala o arqueólogo Sérgio Monteiro da Silva, também do MAE-USP. "Até o fim do ano, receberemos resultado de análises, para entender quem foram elas."

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