José Patricio/AE
José Patricio/AE

''Multas são melhor cartilha para educar motorista''

Responsável por avaliar campanha de prevenção de atropelamentos diz que, antes de punir, é[br]preciso informar

Renato Machado, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

ENTREVISTA - Luiz Célio Bottura, ombudsman da Secretaria Municipal de Transportes

A campanha para aumentar o respeito aos pedestres tem a partir de hoje um ombudsman, ou seja, um ouvidor, que vai acrescentar críticas e sugestões às ações em curso. O engenheiro Luiz Célio Bottura, de 71 anos, foi conselheiro da São Paulo Transporte (SPTrans), presidente da Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa) e atualmente é consultor.

Ele vai ocupar uma sala no 7.º andar do prédio da Secretaria de Transportes, no centro, o mesmo onde está o titular da pasta Marcelo Cardinale Branco - principal entusiasta na administração em deixar São Paulo parecida com cidades modelos no que diz respeito aos direitos de quem está a pé, como Brasília.

Bottura terá à sua disposição um assistente, um celular e um carro para poder percorrer a cidade, levantando os problemas e apontando soluções. Sabe que é difícil mudar os hábitos dos motoristas, e que será necessário multá-los em algum momento. "Considero que a melhor cartilha do mundo para ensinar algo é o talonário de multas do agente", afirma.

Como será a atuação do ombudsman na campanha?

Vou levar sugestões que partam de mim e de preferência da comunidade para eliminar focos de acidentes. Como envolve mudança de comportamento, nós vamos semear novas ideias. Estarei nas ruas circulando e vou ao encontro de quem tiver informação para passar, sugestões ou críticas. As pessoas também vão poder entrar em contato comigo por um e-mail ou site que serão criados. E depois vou transmitir tudo ao secretário (Marcelo Cardinale Branco) em reuniões que pretendo fazer no mínimo a cada cinco dias. Depois, o poder público decide o que fazer, porque eu não serei o órgão executor, mas sim, o consultivo.

O que precisa ser feito para as ações serem bem sucedidas?

É preciso insistir nas mais variadas formas de educar a população e também seus agentes. Um agente muito importante é quem constrói a cidade, que são o poder público, os arquitetos, os engenheiros e projetistas. Em seus projetos, eles devem começar a ajudar a prevenir acidentes. Vou dar como exemplo as esquinas de São Paulo, que são pontos que concentram boa parte dos acidentes. A visibilidade que o pedestre e o motorista têm um do outro normalmente é muito pequena. O motorista parado no cruzamento não consegue enxergar o que acontece na rua afluente dela. Se aumentarmos, por exemplo, o raio nas esquinas, isso já vai apresentar uma melhora nas condições.

E que medidas podem ser adotadas de imediato ou a médio prazo para reduzir os acidentes?

Um exemplo que cito é aqui, na Rua Boa Vista (onde fica o prédio da Secretaria de Transportes). Vou sugerir que seja ampliada uma das calçadas porque as pessoas têm dificuldades para caminhar, é muito estreito. E também o tempo de travessia de pedestres deveria ser maior. O semáforo em tempo longo (de espera) ensina o pedestre a desrespeitar, e isso é a anticultura. Também seria positivo não fazer as pessoas se sentirem como "estrangeiras", procurando os endereços porque isso as deixa vulneráveis a acidentes. Vou sugerir que os números dos imóveis sejam maiores, isso já ajudaria bastante.

Qual a avaliação das primeiras medidas da campanha?

Não tenho uma avaliação propriamente dita, mas sim alguns comentários. Precisa melhorar a visibilidade do operador da faixa de segurança. Ele precisa estar mais visível. Nas costas da camiseta do operador, por exemplo, não há nada escrito. Elas precisam também trazer uma mensagem ao pedestre, mostrando que é necessário respeitar os veículos e não só o contrário. Nós devíamos colocar pessoas com pernas de pau para que elas fiquem visíveis, e sugeri ao secretário que elas usassem trajes de caveira para chocar um pouco mais.

Quando deve começar a intensificação das multas para quem não respeita o pedestre?

Não cabe a mim decidir. Isso (a intensificação das multas) precisa acontecer em algum momento. Considero que a melhor cartilha do mundo para ensinar algo é o talonário de multas do agente, seja ele eletrônico ou manual, mas acho que todos nós devemos ser educados primeiro para depois sermos punidos.

É possível atingir a meta de reduzir pela metade o número de mortos por atropelamento nas ruas de São Paulo?

O possível começa com o primeiro passo. E o começo antecedeu a minha vida, mas eu entrei nessa caminhada.

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